quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Quem diz que chegar atrasado é ter estilo anda bem enganado..

Finalmente estou aqui, com alguma coisa para mostrar.. Se há uma lição que já tirei de participar neste blog, é que há uma correlação directa entre o nível de aborrecimento numa aula, e a vontade que me dá pra escrever. Obrigada aos meus colegas que apresentaram, apesar de nem saber sobre o que é que eles falaram.
Como foi o primeiro desafio, e não tinha ponta por onde lhe pegar, acabei por escrever sobre eventos reais. Portanto o que vão ler é baseado na realidade, por mais estapafúrdio que vos pareça. :D

A cifra dentro do código no segredo da fórmula de Coimbra


Todos nós sabemos como são estas aventuras. Todos nós conhecemos o Código DaVinci, o Tesouro, o Indiana Jones, e muitos usam a expressão viver a experiência para descrever a sensação que elas evocam.
Mas eu posso-vos dizer que não viveram experiência nenhuma, não senhor. Porquê? Porque viver a experiência foi o que aconteceu comigo. Passei por uma aventura digna de qualquer caça ao tesouro e há uma grande diferença entre ler ou assistir, e estar lá, a olhar em volta com as pistas na mão, sentindo um crescendo de entusiasmo que se espalha pelo corpo e se desvanece em arrepios pela espinha. O latejar da pulsação nos ouvidos quando alguém descobre a cifra e a sensação de um segredo maior que todos nós, contido a custo, enquanto passamos por transeuntes na ignorância, a caminho da nova etapa ou do desafio final. Querem saber como é? Eu conto:
É óbvio que não acordei naquela manhã com nenhum pressentimento ou sensação estranha, e o dia afigurava-se perfeitamente banal. Só à tarde, quando entrei no Departamento de Botânica da Universidade, é que notei algo de estranho. Passei pelo Tiago e pela Joana no corredor, agitados com alguma coisa de tal forma que se sobressaltaram com o meu cumprimento. Logo a seguir o Tiago olhou em volta e pegou no meu braço, guiando-me para longe de ouvidos curiosos. Por momentos pensei que me fosse interrogar, tanta era a determinação no seu olhar, mas o que ele fez foi contar-me o que perdera até à altura. O pequeno livro antigo que encontrara numa gruta na Mata, atado a um estranho cilindro fino de ferro, ocre com a ferrugem; de como uma série de números lá dentro o intrigara e como ele, o Carlos R. e o Pedro decifraram uma mensagem lá contida; como essa mensagem os levou à Via Latina, onde o Pedro subiu a uma das estátuas e usou o cilindro de ferro para revelar um pequeno nicho.
Nesta altura pensei, como todos pensariam, que ele me estava a pregar uma partida. Desde quando é que se encontram pistas e segredos nos nossos dias? Foi com cepticismo que ouvi o resto da história. O pequeno nicho na Via escondia uma nova pista dentro de uma vieira coberta de líquenes e o grupo, entretanto aumentado com a chegada da Joana e do Carlos M., voltou ao Departamento. Agora a Joana e o Tiago estavam à espera dos outros, que tinham subido até à sala de computadores para consultar novos códigos. Das duas, uma: ou estes dois eram bons actores, ou então algo verdadeiramente invulgar se estava a passar, e eu hesitava entre as duas quando uma comoção no corredor atraiu a nossa atenção, o som de passos desconcertados descendo a escadaria à pressa. A expressão ansiosa e exultante nos rostos do Pedro e dos Carlos, a maneira como quase gritaram num sussurro "Descobrimos!" e nos arrastaram para fora do edifício não podiam ser fabricadas, e o meu cepticismo desvaneceu-se aí, sendo substituído pelo burburinho abafado da adrenalina a aumentar.
Embarquei com eles na demanda da próxima pista. Um tosco poema frisava a palavra quartzo, uma mulher poderosa, fé, e Tiago insistia que quartzo indicava iluminação e que todo o poema apontava para a Sé Nova visto que para além de uma igreja, fora em tempos um colégio. Chegados lá separámo-nos para poupar tempo nas buscas, mas passada uma boa meia hora ainda estávamos de mãos vazias, não que eu me lembre bem do tempo passar, tal era o entusiasmo. Lembro-me só das conversas murmuradas, das perguntas e do escrutínio rigoroso que fiz ao altar da Senhora da Graça.
Infelizmente foi nesta parte que o tapete foi puxado e nós caímos redondos no chão. Tiago tinha recorrido à ajuda do sacristão, numa tentativa de descobrir qualquer tradição ou história que nos ajudasse. A resposta do homem foi um balde de água fria:
“Isso é sobre um jogo de pistas? Ah, devem ter sido os escuteiros que estiveram cá no fim de semana.”
A desilusão estampada no rosto de cada um de nós deve ter sido ou cómica, ou perturbadora, já que o sacristão demorou menos de um segundo a virar-nos as costas e ir-se embora. Ficámos uns momentos parados, a olhar uns para os outros, procurando uma negação, mas encontrando apenas resignação e desânimo. Em todas as faces menos numa. A do Pedro espelhava frustração e teimosia.
“Isto é impossível ter sido feito por putos! O homem está a fazer confusão, de certeza.”
Permaneci calada, enquanto os outros discutiam entre si. A insistência de Pedro mantinha a chama da aventura acesa em alguns de nós, mas não o suficiente. Mesmo assim conseguiu que Carlos R. o acompanha-se à Porta Férrea, já que a alternativa à Sé era Minerva, uma mulher poderosa e aliada ao conhecimento, palavra essa muitas vezes associada à iluminação. Joana decidiu regressar a casa e Tiago tinha uma aula a começar, pelo que o grupo se reduziu a quatro, com o tempo de espera pelo Pedro e pelo Carlos R. passado a recontar o início da tarde, que eu tinha perdido. Talvez por estarmos apenas dois, ou por causa da dúvida dos escuteiros, nessa altura lembro-me que a euforia quase desapareceu. Provavelmente por isso não estávamos à espera que os outros encontrassem uma nova pista, mas foi precisamente o que aconteceu: atrás de um dos rebordos no corredor da Porta Férrea estava um quartzo envolvido numa tira de couro velha coberta de números. E estávamos de volta à acção.
Desta vez fiz parte do grupo que decifrou o código, o que serviu apenas para provar que não tenho jeito nenhum para cifras. É triste, mas é verdade, e tudo o que fiz foi deixá-los usar o meu portátil, ficando a vê-los trabalhar e sentindo-me a modos que inútil. O meu contributo resumiu-se a procurar nos versos d'Os Lusíadas pelas letras indicadas, assim que chegámos à conclusão que a resposta estava nos cantos dessa epopeia.
“Andamos em busca do Poder.” foi a frase que decifrámos. Carlos M. inclinou-se do outro lado da mesa.
“É só isso?” perguntou.
“Parece que sim. O que raio quer dizer?”
“Poder é conhecimento...” Carlos M. sugeriu. Era uma boa ideia. Mas uma ideia que me fez chegar a uma conclusão.
“Se calhar acabou. Se calhar é a última pista.”
“Não é nada.” Carlos R. discordava.
“Achas? Então tens alguma ideia? Isto é aqui que acaba.” Foi a resposta do outro Carlos, e por um momento era uma disputa entre o lado carlos da mesa.
“Eu acho que o Carlos tem razão.” disse, apontando para o M..
“Não, não--”
“Sim, olha!” interrompeu ele “Conhecimento é Poder, e o que é que nós estamos aqui a fazer? Isto é uma universidade, uma fonte de conhecimento.”
“Verdade!” concordei “Nós que estamos aqui, estamos aqui para aprender, pelo conhecimento logo, andamos à procura do Poder.”
Este nosso argumento era sólido. Nem sequer pensei no pormenor de não haver tesouro com este desfecho, só o facto de termos chegado ao fim fez todo o percurso valer a pena. A viagem é tão importante como o destino e este destino, para mim, fazia sentido. Envolvida que estava na discussão, não reparei que o Pedro se mantivera calado no seu canto, durante toda a conversa. Só quando voltei a ouvir a sua voz é que notei que ele não falava há já algum tempo.
“Eles têm razão. Este é o fim.”
“Não é nada! Não faz sentido que seja o fim--” Carlos R. não cedia.
“É o fim, tenho a certeza.” Pedro voltou a afirmar calmamente.
“Então diz-me como podes ter tanta certeza?”
E aí caiu a bomba.
“Tenho a certeza, porque fui eu que fiz isto.”
Durante uns segundos a única coisa que fizemos foi olhar para o Pedro com cara de idiotas.
“O quê?”
“Fui eu.” voltou a dizer “Andamos em busca do Poder. Poder é um anagrama de Pedro. Vocês andaram à minha procura.”
Esta novidade não foi suficiente para nos acordar do estupor que nos prendia.
“E isto aqui..” continuou, puxando do pequeno livrinho que começara tudo e espalmando-o de folhas para baixo na mesa “Estas linhas na capa, se as passarem para um papel, formam o meu último nome.”
E procedeu a demonstrar-nos o que dizia. Seguiu-se uma corrida às perguntas:
“Mas..mas isso é velho!”
“Café faz maravilhas ao papel.”
“Mas não cheira!”
“Terra. Isso e o facto de que eu fiz o livro há uma mês, e ele tem estado na gruta há uma semana.”
“E as pistas?”
“Tudo feito. Cera, conchas velhas..”
“Então e a barra de ferro? Desculpa lá, mas não consegues fazer uma barra à medida e envelhecer o ferro.”
Pedro, que até aí mantivera um ar sério, deixou que um sorriso matreiro lhe aparecesse nos lábios.
“Ah, isso é fácil.”
E perante os nosso olhos inclinou-se para o lado, estendendo o braço para baixo entre a mesa e a janela alta, fez um pouco de força e regressou com um ferro exactamente igual ao nosso, o sorriso estendendo-se até mostrar os dentes. Era um ferrolho das janelas, logo uma barra de ferro com mais de 150 anos à vontade.
“Não foi preciso fazer à medida porque não havia nicho nenhum... Se bem se lembram, fui eu que subi à estátua.” rematou ele, fazendo as peças encaixarem nas nossas cabeças.
Não sei se foi o tempo todo que perdemos numa partida, se foi o culminar de toda a emoção daquela tarde, ou se foi, simplesmente, o termos sido enganados por um ferrolho... O que quer que fosse, desatei a rir naquela altura, enquanto que um Carlos permanecia chocado, e o outro abanava a cabeça, incrédulo.
É claro que uma parte de mim ficou desiludida e outra parte algo chateada, mas em retrospectiva, o facto de ter sido tudo um embuste não diminui o quanto me diverti naquela tarde, não anula uma experiência que aposto que muito poucas pessoas alguma vez passaram, e só me faz reconhecer que não importa o que julgamos que sabemos, há sempre algum génio louco que nos vai surpreender.

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E aí tá. Ainda tenho a última pista algures no meu quarto. Alguns pormenores não estão correctos, visto não me lembrar bem das partes que não assisti, mas foi basicamente isto. Talvez para a próxima conte como uma turma conseguiu pôr uma escola em pânico por causa de extraterrestres...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Em breve

Olá a todos.
Antes de mais, ainda que com algum atraso, um Bom Ano Novo (sim, já o tinha desejado antes).
Venho dizer-vos que, apesar do nosso blog andar paradinho, nos bastidores há imensas conversas sobre pô-lo de novo no activo. Nunca é um estado muito eficiente, uma vez que os três fundadores têm imensa coisa para fazer, mas não nos esquecemos do nosso cantinho.
Assim, àqueles que nos seguem e não só, nada temam. O blog apresentará novos textos muito breve (concretamente, o mais tardar a próxima semana), mesmo que isso implica fugir um pouco às regras que tínhamos estabelecido inicialmente.
Já agora, fica o pedido de que surjam mais comentários, não só daqueles que nos seguem, como também dos três responsáveis.


Os meus cumprimentos (e algumas larguras, porque não?).