Escrever. Porque escrevo? Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão. Vergílio Ferreira, in 'Pensar'
terça-feira, 25 de novembro de 2008
As Botas de Dorothy - Parte Quatro
O veículo já se encontra dentro do perímetro da paragem, e Harriet de pé, quando Elianor se detém um segundo com a mão no ar, perigosamente perto da minha pele, descuidadamente perto da minha dignidade. Exagero o solavanco de travagem do autocarro, aproveitando a oportunidade para me afastar da suavidade alarmante dos seus dedos.
Elianor finge não reparar e segue a filha até à saída, não sem antes me dizer “Boa sorte para a consulta, Olívia. És, de facto, a rapariga de 15 anos mais madura que alguma vez conheci”.
Já se encontram no exterior do autocarro quando trocamos um aceno através do vidro parcialmente embaciado. “Adeus, Harriet”, digo através de palavras silenciosas enquanto sorrio para a pequena. Elianor acena também, pelo que dirijo o meu olhar para ela e retribuo. “Até logo, mãe”.
O autocarro retoma o ritmo tremido e o ruído rouco do motor, e as duas mulheres vão ficando mais pequenas com a distância. Deixo de acenar. A partir daquele momento é um comportamento tolo e…popular. E eu disse que sabia comportar-me.
A minha melhor característica é aquela que com que me permito estar perto daquelas que são as mulheres mais deslumbrantes e encantadoras da minha vida. Logo, jamais me desapontarei.
Pergunto-me, sempre que a vejo entrar neste que é o último autocarro do dia, como é que pode ficar à espera do transporte sozinha numa paragem quase isolada, sobretudo quando o céu está praticamente negro com a aproximação da noite. Sei que é mais nova do que eu, por isso me espanto que ali fique, naquelas condições, quando eu torceria o nariz e tentaria arranjar outra alternativa, fosse ela qual fosse.
Não sei como se chama, mas reparei nela pela atitude decidida e séria que emana do conjunto dos seus atributos. De pequena estatura e cabeleira abundante e negra, penteada de forma antiquada, entra no autocarro de carteira encostada ao peito e caminha com passitos curtos, dando pequenos saltinhos ao avançar. Podia chamar-lhe um passo feminino e dizer que esta é uma mulher em miniatura. Não sei a sua idade, mas não tem aquela que quer aparentar. Pelo menos não para o observador cuidadoso.
Não lhe fica mal, contudo. De facto, não tem o aspecto, muitas vezes exagerado e forçado daquelas que querem ser adultas à força. O passo determinado com que faz soar as botas no soalho, o olhar independente de mulher que cresceu depressa demais, inteligente e atento por detrás dos óculos, destacam-na das outras da mesma idade que tenho visto por aqui. Quando se senta no lugar que escolhe, volto a perder o seu olhar, desta feita para um vidro iluminado em excesso pelas luzes do interior, o único a quem é permitido partilhar os seus pensamentos.
Talvez um dia lhe fale. Talvez um dia lhe possa dizer que vou escrever uma história sobre ela.
As Botas de Dorothy - Parte Três
Nem sempre é fácil viver rodeada de miudagem de atitude histérica e absurdamente impulsiva e emotiva, mas para quando sinto fraquejar a certeza de mim própria tenho as minhas botas. De camurça castanha e suaves ao toque, mantêm-me os pés quentes e bem assentes na terra. Pode soar a algo que a futilidade apregoaria, “as minhas lindas e modernas botas”, mas a verdade é que me fazem sentir segura e confiante. Os meus passos, curtos e apressados, tornam-se decididos e femininos, pelo menos a meu ver. Não sei dizer o que possam ter de especial, até porque não são particularmente espectaculares, mas eu adoro-as e costumo até pensar nelas como o equivalente aos sapatos de Dorothy, a personagem principal do conto infantil “O Feiticeiro de Oz”, excepto que as minhas botas não me transportam entre locais. No entanto, fazendo-me sentir segura num mundo virado do avesso, talvez lhes possa atribuir uma certa dose de magia…
Sentadas lado a lado, Elianor e Harriet trocam palavras abundantes entre si durante a viagem, e sorriem para mim daquela forma gémea que as aproxima em tantas outras coisas. À sua frente, esboço um sorriso, que sei que nunca sairá tão encantador quanto o delas, e mantenho o ar sério que me define.
Às vezes acho que Elianor tenta puxar-me para as conversas que partilha com a filha, mas elas são tão adoráveis naquela beleza que partilham, que sinto repulsa em incomodar e intrometer a minha gravidade. Prefiro ocupar-me revendo mentalmente a ordem com que delineei as várias acções do meu dia. As aulas da manhã, o almoço rápido na cantina, a procura, junto das entidades certas, de certos documentos que preciso entregar na escola, a ida ao ginecologista. De todas, é esta última que mais me incomoda, mas não o demonstro. Não gosto de partilhar a minha privacidade com ninguém, nem mesmo com quem mais admiro e, por isso, respondo grave, e quase friamente, a Elianor quando volta a insistir em acompanhar-me na consulta. Posso não ser tão bela quanto elas, mas adquiri os seus hábitos e conduta, e sei comportar-me como uma senhora educada e discreta. Não quero, nem preciso, de acompanhante algum.
As Botas de Dorothy - Parte Dois
No entanto, devo dizer que nem tudo é totalmente desagradável neste novo lugar: quase não há ruído de veículos, não se ouve vivalma durante o dia, um silêncio que tem tanto de compensador como de assustador (não gosto de barulho, mas uma pessoa sente-se sozinha sem o mais pequeno ruído de fundo e os sentidos ficam mais alerta), há imensos espaços verdes e podem fazer-se longas caminhadas e respirar um ar muito mais puro que aquele a que estávamos habituadas.
Elianor e Harriet assumiram a mudança com a habitual tolerância que define o seu comportamento. Elianor chegou mesmo a dizer que não via qualquer problema em morar ali, enunciando em seguida as melhoras características do sítio, que acabei de referir.
De longas madeixas douradas e parcialmente encaracoladas, pele alva, suave, cuidada, Elianor é uma mulher gentil e sensata, com a qual poderia passar horas a conversar. É também uma mulher de uma graça inqualificável: altura e peso perfeitos, maquilhagem usada apenas para realçar os grandes olhos cor-de-azeitona, e vestuário simples, mas absolutamente elegante.
No entanto, é também uma mulher ocupada com a gerência do próprio negócio, pelo que desde sempre me habituei a nunca a interromper ou incomodar. Não que ela fosse tratar-me rigidamente, a julgar pelo sorriso cálido e doce com que brinda a pequena Harriet, a sua filha mais nova, sempre que esta lhe bate à porta do quarto.
Apesar dos cinco anos de idade, Harriet podia ser considerada uma mulherzinha em tamanho reduzido. O cabelo, em tom dourado e curto, confere-lhe simultaneamente um aspecto decidido e descontraído, algo que reverbera a partir dos grandes olhos azuis. Delicada e linda como a mãe, mas divertida como só ela própria, é alguém que sabe agradar ao visitante e atrair as atenções pelas melhores razões possíveis. A conversa educada, o olhar interessado, os gestos tímidos, mas seguros… Por outras palavras, uma princesa em crescimento.
As Botas de Dorothy - Parte Um
Para aquelas que rapidamente se tornam
mulheres pouco convencionais
O meu nome é Olívia e mudei-me recentemente para uma zona afastada da cidade, um pequeno bairro onde as vivendas particulares abundam e onde a pacatez é a palavra de ordem durante todo o dia.
Esta é uma zona em progresso, mas com algumas reminiscências do ruralismo anterior. Está povoada de grandes casas, algumas prontas a estrear ou ainda em construção e, apesar da remotabilidade que quase descreve este lugar, o número de casais jovens que se vem instalar vai aumentando, ainda que lentamente. O acesso através de transportes públicos é, todavia, reduzido, e a partir de certas horas é mesmo impossível, uma vez que o número de autocarros disponíveis para esta zona é praticamente nulo. Assim, as pessoas que destes dependem para se dirigir ao emprego todas as manhãs encontram-se naquele que é o único autocarro que as pode levar dali até ao centro da cidade à hora madrugadora.
Tal como referi, por aqui os rostos novos surgem com lentidão, por isso aqueles que me acompanham na viagem matinal até à cidade são os que aqui moraram toda a vida e cuja família se multiplicou em redor da casa dos progenitores mais antigos. Posso até dizer que o bairro se poderia dividir em diferentes quadrantes, de acordo com o sobrenome predominante.
Reconheço todas as manhãs os mesmos rostos, portanto. As duas estudantes universitárias, de longos cabelos dourados, aspecto jovial e palrador, e pasta negra na mão; a proprietária do café local, uma senhora com cerca de setenta anos, cabelo grisalho e avental azul axadrezado, que traz pela mão a neta mais nova, uma menina de cabelo cor de avelã, bibe cor-de-rosa e voz animada, muito irrequieta; o grupo de seis ou sete raparigas adolescentes, distinguíveis dos restantes pelas roupas de cores berrantes, a maquilhagem forçada e o tom de voz agudíssimo com que, em vocabulário pouco polido, trocam entre si opiniões fúteis sobre determinado tema; o proprietário da tabacaria local, de pernas longas, barriga muito proeminente e cabelo totalmente branco; o irmão da costureira, de fato impecavelmente passado a ferro, sem vestígio de vincos, e bigode farto; por vezes a própria costureira, uma mulher roliça e anafada, de farta cabeleira loira, qual juba de leão, mas que, segundo ouvi, faz magia com a agulha. Há ainda duas outras senhoras, de idade mais avançada, nas quais reparo frequentemente; se não estão a falar uma com a outra como se houvesse um vidro entre ambas, uma mete conversa com qualquer um, sem reparar nos olhares de soslaio que lhe lançam outros, enquanto a outra fala sozinha, respondendo às próprias perguntas, como se estivesse a seu lado um interlocutor que mais ninguém consegue ver.
Os três primeiros lugares do autocarro são, no entanto, ocupados por três mulheres que se distinguem dos restantes pela atitude elegante, clássica, que as reveste dos pés à cabeça. Ou talvez estes sejam os melhores adjectivos a aplicar apenas a Elianor e Harriet, uma vez que eu não nasci tão bonita e distinta quanto elas. Além disso, estou habituada a não dar nas vistas ou a ser olhada uma segunda vez. Não é algo que me incomode, contudo. Cada um deve aceitar o que é e valorizar as suas próprias qualidades. E eu sei comportar-me. Essa é a minha melhor característica.
Não há como não apreciar Elianor e Harriet, quanto mais não seja por se destacarem tão intensamente daqueles que as rodeiam àquela hora do dia. Há gente a falar muito alto; queixumes sobre artroses, dor nas costas e nas pernas, tendência dos maridos para o álcool, do frio que já faz no mero início do Outono, percorrem o ar que embacia os vidros. Elianor, Harriet e eu somos diferentes: trocamos palavras murmuradas, inclinando-nos para perto das outras para melhor sermos ouvidas, e quando voltamos a recostar-nos no banco, ficamos erectas, de mãos descansando no colo e o pescoço direito, enquanto observamos através do vidro com um olhar plácido, inteligente e atento.
Não me interpretem mal; não tenciono descrever-nos como três mulheres de fortuna e mediocridade abastadas, como as que povoam as revistas sobre casamentos e outras festas entre famosos. Não. Somos diferentes simplesmente porque não pertencemos a este meio, e não temos nada em comum com estas pessoas. Não é minha intenção menosprezá-los ou ofendê-los seja de que forma for, mas não se pode esconder que se trata de um meio pouco estimulado, mas antes pleno em intrigas e mexericos de bairro onde absolutamente toda a gente se conhece e de alguma maneira se relaciona consanguineamente, e isso é algo que não nos agrada de todo. Nós estamos habituadas a outro tipo de coisas, mais características do meio urbano, entre as quais a falta de contacto entre vizinhos e a discrição.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Prelúdio
Olá a todos.
Tal como refere o Samuel no post de estreia, este será um espaço dedicado a uma iniciativa entre três amigos que, apesar do background académico diferente, partilham a paixão pela escrita. Espero que sejam muitos aqueles que possam vir a interessar-se por esta ideia e queiram contribuir para o enriquecimento do blog com comentários construtivos e, quem sabe, um texto ou dois.
Serve este post, não para repetir as palavras do Samuel, mas para anunciar que o primeiro texto, da minha autoria, será aqui colocado no dia 25 de Novembro, sendo referente à categoria de escrita livre.
De título As Botas de Dorothy, trata-se de um pequeno conto que escrevi recentemente, e é daquele tipo de ideia que nos surge quando estamos apenas a observar o mundo em redor. Às vezes as coisas que observamos destacam-se muito bem e, portanto, é possível ser rapidamente assaltado pelo impulso de escrever. Noutros casos, como é o desta história, a observação é feita num ambiente comum e, por isso mesmo, a imaginação pode acabar por correr sem que nada o previsse. É como estarmos diante de um campo de flores. Podemos deixar-nos deslumbrar e ir a correr escrever sobre a fantasia e a maravilha do que sentimos ali estando, mas também podemos apenas pensar “Que bonito” e não sermos activados por nada em particular. Nada, até repararmos nalguma coisa à qual se pode chamar de diferente.
E o que é mais interessante, sobretudo do ponto de vista de um autor, é que, aquilo em que reparamos nestas situações, pode não ser aquilo em que repararia outra pessoa. E isso é o que, na minha opinião, torna um olhar especial. E, claro, o objecto da observação, por ter despertado a atenção de um, enquanto os outros continuam a ver através de si.
As Botas de Dorothy é um conto que se enquadra nesta questão. Podia tecer mais algumas considerações, mas seria revelar demasiado para uma história que fala por si.
Até breve,
Joana
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Breve Nota de Apresentação
Neste espaço pretendemos incentivar a produção textual sobre diversas temáticas e sob múltiplas formas.
A ideia-base (da autoria feliz e oportuna da nossa colaboradora Jo F) é, pois, a de criar um espaço activo de produção, partilha e discussão de textos originais entre múltiplos utilizadores.
Para este efeito, julgou-se oportuno elaborar um conjunto de regras ou princípios que regem a organização deste projecto. São as seguintes:
1 - Em cada sessão, um colaborador será convidado a redigir um texto e a partilhá-lo com os restantes visitantes e colaboradores do blog. Todos os colaboradores serão chamados a participar no projecto segundo uma ordem rotativa (Exemplo: 1ª sessão - colaborador A; 2º sessão - colaborador B).
2 - A entrega dos textos deverá respeitar um prazo pré-acordado e definido entre o colaborador e a restante comunidade. Em caso de manifesta impossibilidade de cumprimento dos prazos, o colaborador deverá informar atempadamente a administração do projecto.
3 - Cada sessão apresentará um desafio diferente ao colaborador. Assim, numa primeira sessão poderá ser proposta a elaboração de um "texto livre", ao passo que na seguinte se poderá sugerir a elaboração de um texto partindo de uma imagem pré-fornecida ou de um tópico pré-definido (entre outros desafios). Idealmente, todos os colaboradores terão oportunidade de responder a todos os desafios seguindo a mesma lógica rotativa (Exemplo: colaborador A - Desafio 1; Colaborador B - Desafio 2; Colaborador A - Desafio 2; Colaborador B - Desafio 1).
Serão bem-vindas quaisquer sugestões ou comentários que possam ajudar a melhorar a organização e gestão deste projecto.
Obrigado pelo interesse
Samuel Alexandre