segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sobre "As Botas de Dorothy"

Tal como referi anteriormente, as “Botas de Dorothy” é uma pequena história que escrevi há relativamente pouco tempo, à cerca de uma rapariga que partilha comigo as magníficas viagens de autocarro quase todas as manhãs. A rapariga, à qual atribuí o nome de Olivia, é real, mas nada sei sobre ela à parte daquilo que me inspirou e levou ao nascimento desta pequena história. Nada do que escrevi é seguramente verdadeiro ou biográfico, apenas produto da imaginação. O certo é que a rapariga em questão, com os seus passos/saltinhos (estes sim, são reais) se fazia acompanhar de vez em quando por uma senhora e uma criança, de facto diferentes dela, o que, de alguma maneira, activou o meu sistema imaginário.

Na verdade, não sei se serão sequer da mesma família, mas como escolhiam os lugares da frente do autocarro, sentando-se juntas e partilhando algumas palavras, imaginei como se sentiria uma rapariga, tão diferente da mãe e da irmã, excepto na atitude composta e cuidada. Seria de propósito? Seria uma defesa?

E depois há os referidos “saltinhos” que inspiraram a Olivia, os quais desde início me fizeram crer que se tratava daquilo a que se pode chamar “uma mulher em ponto pequeno”. Uma certa atitude e firmeza, apenas naqueles passinhos, criaram toda uma personagem que, associada à diferença entre si e as outras que a acompanhavam, acabou por se tornar na minha Olivia. Minha porque não sei quanto dela será real.

Outro ponto que acho particularmente engraçado são as botas. Bom, quando dei a ler a história a várias pessoas, muitas me perguntaram se se tratava de um texto autobiográfico. A isto só posso responder que de autobiográfico tem a parte final, em itálico, que retrata a minha verdadeira visão sobre a rapariga a que chamo Olivia, as pessoas e o ambiente do autocarro e dos subúrbios onde mora Olivia, e... as botas. Quem conhece a pequena Dorothy saberá certamente que não eram botas que ela tinha, mas sim sapatos. Estes permitiam-lhe transportá-la entre lugares. De modo que tentei criar um trocadilho entre as minhas botas, também uma parte real desta história (estou a usá-las neste momento...) e que de facto me fazem sentir muito bem, e o facto de Olivia poder colocar num objecto uma importância, uma magia, que à partida a faz sentir bem num mundo em que precisa de fingir para mostrar que está à altura.

Isto leva-me a outro ponto que tentei focar nesta história: a àltura de quê, afinal?. Será a mãe que a coloca naquela posição que a obriga a dar mais de si do que seria de esperar de uma adolescente? Ou será uma escolha da própria Olivia? Confesso que nem eu posso responder. Eu não sei.

Portanto, em resumo, eram essencialmente três os pontos que decidi focar ao escrever esta história. A relação com a mãe, que só é revelada no fim, a maturidade imposta/escolhida por uma menina de apenas quinze anos e, claro, a magia das pequenas botas como objecto capaz de criar algum ânimo em alguém que cresceu demasiado depressa.

Não querendo aborrecê-los mais, espero que tenham gostado e que possamos trocar mais alguns textos num futuro breve.

Em nome do blog, aproveito também para deixar os votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, em especial no campo das letras.

Joana

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Dulcineia


Boas

Por sugestão da Joana, publico um excerto de um texto que não sei ao certo como definir. Amostra de romance, ensaio, autobiografia ou poema-em-prosa, este pequeno "monstrinho" há muito que me vem perturbando e seduzindo, sem que eu saiba ao certo que rumo definitivo lhe dar.

Por tudo isto, o mesmo texto deverá ser lido e interpretado como resumo, rabisco, obra em curso e sujeita a futuras alterações ou, porventura, destruição total. (O que é evidente dada a curta extensão dos capítulos os sinais "+", etc.)

Sabendo que seria aborrecido e desnecessário alongar-me muito em explicações sobre a natureza e temática do texto, deixarei apenas algumas considerações prévias que talvez facilitem a leitura. Se houver interesse ou necessidade de esclarecer algum ponto, responderei num comentário futuro.

- a epígrafe retirada do "Dom Quixote" traduz-se para algo como "Se vo-la mostrasse que faríeis vós em confessar uma verdade tão evidente?" e é a resposta dada pelo mesmo Quixote a todos aqueles que têm relutância em afirmar que Dulcineia seja a mais bela das mulheres apenas por nunca a terem visto. Para Quixote, jurar depois de ver seria fácil, inútil e de pouco valor. Fica assim talvez mais claro o título "Dulcineia" que funciona como nome alternativo para Marta (a mulher "imaginária" com quem dialoga o narrador) e também o trocadilho final "escrever-te-ei no próximo capítulo" = ("escrever-lhe-á", mas também " escrevê-la-á").

- a epígrafe de Eugénio de Andrade pretende simbolizar a dificuldade de comunicação e demonstração de afecto entre duas pessoas (que se relaciona também com o tema da problemática relação entre Linguagem e Realidade)

- Se o primeiro capítulo está mais próxima da forma do romance propriamente dito, o segundo é maioritariamente um ensaio, um caderno de apontamentos de temas a desenvolver ao longo da história (daí as reflexões, as citações, etc.)


Dulcineia

"Si os la mostrara qué hiciérades vosotros en
confessar una verdad tan notoria?"

Don Quijote




"Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias"

Eugénio de Andrade


I


.... E tudo era como se por um instante secreto fosse possível saltar o muro e transpor a cortina espessa que nos policiava o desejo.

- Oh, mas sem melodramas...

Sim, sim, de acordo. Áspera, fria e cortante - a tua voz. (É a voz da "minha mulher") E todavia sempre sincera, suave e delicada. Será isto um paradoxo? Queimando como a brasa que nos consome as mãos para depois as confortar e defender no rasto delicado da sua combustão...
(Porque também pode haver carinho no simples acto de destruir, desfazer ou insultar...).

Ou talvez eu te reduza, desfigure e diminua ao procurar atribuir assim um certo travo assassino ao que em ti era puro, instintivo, natural - o falar.

E depois tu nunca foste mulher de segundas intenções. O teu discurso exacto, preciso como um golpe desferido, disparado à queima-roupa. As acções perfeitamente reguladas, coordenadas sob disciplina militar.

Ah, como é fácil e reconfortante sonhar com monstros no escuro! O conforto quente que nos oferece o cultivar de um temor, submissão! "Se os não podes vencer, aceita as suas condições." - é a fórmula da prudência dos cansados e da cobardia dos activos. Mas hoje estou cansado e passou o tempo dos projectos...

+++

E a minha teimosia, insistência ou convicção em te falar de um tempo em que (+++) e tudo era como se...

II

Writer's block. A folha em branco, a caneta à tua espera. Que dizer? Falta-me a fé, coragem, ingenuidade ou puro e simples descaramento. A torre de marfim ruiu, estou só e sem desculpas.

E, no entanto, há que vestir o fato de gala, ter maneiras, ser sociável, agradecer e justificar o que já não nos pertence. Egoísta? E como sê-lo? Pesas conceitos, colas metáforas, limas arestas e, no fim de contas, serás sempre traído pela mesma matéria que possibilita a criação. Nunca se diz o que se queria dizer, mesmo que tudo esteja certo...

Ácidas, amargas, frontais, dissimuladas e, porventura, sempre escassas, incompletas, imperfeitas - as palavras. Uma definição ou simples entrada de dicionário - que fictícia confiança...

Definir é reduzir, restringir, delimitar. Catalogar conceitos e arrumá-los para escapar ao abismo do caos, para silenciar o vazio que nunca preenches. A realidade arredondada, aproximada como o 3,14159... O que é a verdade? Qui es veritas? (S.João, 18:38).

A linguagem limita e apazigua. Porque ela nasce talvez da dolorosa constatação da ausência de um princípio ordenador, e foi talvez por isso que o próprio Adão não resistiu à terrível tentação de nomear a realidade (Génesis, 2:19). Porque ela não é um simples meio ou ferramenta necessária à apreensão do Real, mas o próprio Real que descreves e interpretas, e nada existe enquanto não se revela através dela ao teu olhar ... ("The limits of my language mean the limits of my world" - Wittgenstein)

E, no entanto, escreves, insistindo em lutar contra o impossível. (E que outra luta vale a pena?)
Porque o mistério perturba e não estamos calados.
Porque no fim de contas sabes que tudo o que verdadeiramente importa extravasa para lá das correntes dos sintagmas, núcleos nominais, substantivos, morfemas e alomorfes...

E que o azul é muito mais que um nome que tu dás a uma sensação experimentada na observação de um espectro de luz compreendido entre os comprimentos de onda de 440 a 490 nm.
Azul turquesa, azul celeste, azul bebé. Azul líquido e fictício nos teus olhos que nunca foram azuis... - Marta.

Minha ficção das horas vagas, meu amor de papel.
Não serás então nada mais que um calmante? A almofada coçada onde deitamos a cabeça para dormir e esquecer? Enfermeira nocturna, prostituta irreal, lenitivo doce... Pretexto vazio e disfarce fraco de uma degenerescência crónica, da minha virilidade ameaçada e instável como um par de calças com remendos...

Palavras, palavras... São a forma mais fácil e económica de dizer o que se não pensa.
De facto, que tens tu que ver com metáforas alheias?

Tu és tu e tu apenas - tudo o resto é circunstancial.

(Tudo o resto é entretenimento de literatos desempregados que se reflectem ironicamente num jogo de espelhos escrevendo sobre literatos desempregados que inventam piadas sem graça sobre literatos que se miram ao espelho...)

E, no entanto, o teu nome... - Marta. Há tanto tempo, porquê agora ainda? Segue-me para a toda a parte como um mendigo ou cão vadio a quem recusássemos a custo a companhia ou a esmola.

Mas devia despachar-me: tenho uma história a contar. Vou descansar um momento, escrever-te-ei no próximo capítulo.


domingo, 14 de dezembro de 2008

Boas

Não tendo sido capaz de cumprir os prazos estabelecidos, deixo à consideração dos restantes colaboradores a opção de publicarem por sua iniciativa alguns textos seus que entretanto tenham disponíveis.

Pela minha parte, tratarei de publicar aqui no blog a referida "Carta" (ou qualquer outro tipo de texto original que possa escrever entretanto) assim que qualquer um destes se encontre acabado.


Bom Natal e Feliz Ano Novo

Samuel

sábado, 6 de dezembro de 2008

Prefácio a uma "Carta a um futuro filho"

Olá de novo.

Após uma estreia "em grande" possibilitada pela publicação de um belo texto da nossa colaboradora Jo F, cabe-nos desde já confessar as nossas dificuldades em cumprir os prazos relativos à publicação do texto seguinte.

Perante as referidas dificuldades, comprometi-me a publicar o próximo texto que vos passarei a apresentar. A publicação do mesmo será feita no próximo fim de semana (13/14). Esta demora adicional explica-se pelo facto de, por um lado, esta se tratar de uma solução de recurso, e o referido texto ainda não se encontrar redigido e, por outro lado, pela limitada disponibilidade que o final de um semestre de Mestrado nos oferece. Por este facto, apresento as minhas desculpas.

Todos nós conhecemos inúmeros títulos estranhos, misteriosos e sugestivos que suscitam múltiplas interpretações. "Carta a um futuro filho", decerto, não se incluirá neste lote.

De facto, sobre um título tão simples e claro, o que se poderá dizer ao leitor de modo a que este não julgue arrogante ou desnecessária a redacção deste prefácio?

"Porquê uma carta?" - é uma pergunta possível.

Talvez por este género textual ser o que mais facilmente me permite expressar a preferência pelo recurso a um narrador de 1ª pessoa, protagonista da "história" (autodiegético) e o seu necessário diálogo, apelo ou rejeição de um "tu" a quem se dirige. Talvez ainda por, neste caso específico, não se tratar verdadeiramente de um diálogo (não há a resposta do "filho"), mas de um desejo de diálogo e, tal como na vida real, não podermos falar pela boca dos outros mas apenas pela nossa.

"Porquê a um futuro filho?" - outra boa pergunta

Neste ponto sinto-me tentado a apelar à sensibilidade e compreensão das minhas leitoras... Mas, em pleno século XXI, será ainda educado ou correcto acreditar em "instintos maternais"?

Conheço feministas que não me perdoariam este vergonhoso ataque ao reconhecimento da sua liberdade sexual, esta velha referência e confiança no sonho feminino de "ser mãe". (Aliás... As mesmas feministas poderiam certamente reflectir demoradamente sobre a minha escolha por um "filho" e não por uma "filha") Adiante...

E o que pensará um homem sobre esta questão? Aqui a coisa complica-se porque, como é de conhecimento geral, as "coisas de homens" não se contam a mulheres..... nem a homens.

Quantos de nós possuem (por vezes até sem o saber) o sonho de terem um/a filho/a? Não sendo esta uma mera pergunta retórica, não sei avaliar até que ponto os leitores se poderão identificar com a temática deste texto... (De resto, aproximando-se a quadra natalícia, talvez a temática escolhida possa recuperar um pouco da simbologia cristã do milagre de um nascimento desejado).

Resta-me assim apenas desejar que o assunto escolhido não seja sentido como demasiado pessoal ou autobiográfico e que, partindo de um desejo e sentimento reais do autor do texto, possa, todavia, suscitar algum interesse aos seus leitores.

Até ao próximo fim-de-semana

Samuel

terça-feira, 25 de novembro de 2008

As Botas de Dorothy - Parte Quatro

Aproxima-se a paragem onde Elianor desce do autocarro com a filha pela mão, em direcção ao infantário de Harriet. A pequena ajeita a mochila nos ombros, antevendo o momento da saída, enquanto Elianor lhe compõe o casaco, de forma a evitar o frio gelado do exterior. Quando o autocarro abranda, ambas me dirigem um olhar de despedida e Harriet despede-se com um “Até logo” na sua voz jovial e animada. Retribuo com novo esboço de sorriso e um ligeiro toque num dos seus caracóis dourados.
O veículo já se encontra dentro do perímetro da paragem, e Harriet de pé, quando Elianor se detém um segundo com a mão no ar, perigosamente perto da minha pele, descuidadamente perto da minha dignidade. Exagero o solavanco de travagem do autocarro, aproveitando a oportunidade para me afastar da suavidade alarmante dos seus dedos.
Elianor finge não reparar e segue a filha até à saída, não sem antes me dizer “Boa sorte para a consulta, Olívia. És, de facto, a rapariga de 15 anos mais madura que alguma vez conheci”.
Já se encontram no exterior do autocarro quando trocamos um aceno através do vidro parcialmente embaciado. “Adeus, Harriet”, digo através de palavras silenciosas enquanto sorrio para a pequena. Elianor acena também, pelo que dirijo o meu olhar para ela e retribuo. “Até logo, mãe”.
O autocarro retoma o ritmo tremido e o ruído rouco do motor, e as duas mulheres vão ficando mais pequenas com a distância. Deixo de acenar. A partir daquele momento é um comportamento tolo e…popular. E eu disse que sabia comportar-me.
A minha melhor característica é aquela que com que me permito estar perto daquelas que são as mulheres mais deslumbrantes e encantadoras da minha vida. Logo, jamais me desapontarei.









Pergunto-me, sempre que a vejo entrar neste que é o último autocarro do dia, como é que pode ficar à espera do transporte sozinha numa paragem quase isolada, sobretudo quando o céu está praticamente negro com a aproximação da noite. Sei que é mais nova do que eu, por isso me espanto que ali fique, naquelas condições, quando eu torceria o nariz e tentaria arranjar outra alternativa, fosse ela qual fosse.
Não sei como se chama, mas reparei nela pela atitude decidida e séria que emana do conjunto dos seus atributos. De pequena estatura e cabeleira abundante e negra, penteada de forma antiquada, entra no autocarro de carteira encostada ao peito e caminha com passitos curtos, dando pequenos saltinhos ao avançar. Podia chamar-lhe um passo feminino e dizer que esta é uma mulher em miniatura. Não sei a sua idade, mas não tem aquela que quer aparentar. Pelo menos não para o observador cuidadoso.
Não lhe fica mal, contudo. De facto, não tem o aspecto, muitas vezes exagerado e forçado daquelas que querem ser adultas à força. O passo determinado com que faz soar as botas no soalho, o olhar independente de mulher que cresceu depressa demais, inteligente e atento por detrás dos óculos, destacam-na das outras da mesma idade que tenho visto por aqui. Quando se senta no lugar que escolhe, volto a perder o seu olhar, desta feita para um vidro iluminado em excesso pelas luzes do interior, o único a quem é permitido partilhar os seus pensamentos.
Talvez um dia lhe fale. Talvez um dia lhe possa dizer que vou escrever uma história sobre ela.

As Botas de Dorothy - Parte Três

O vidro devolve-me a imagem de uma rapariga de cabelo muito escuro, quase preto, abundante e áspero, parcialmente preso atrás com um travessão de prata e uma franjinha cortada em forma convexa. Ao contrário dos olhos das outras duas, os meus são pequenos e lançam a sua expressão rígida através de um par de lentes de forma rectangular. Há ainda a minha boca e nariz pequenos, que acentuam a minha expressão reservada, e a minha estatura baixa, que não me torna mais engraçada aos olhos de qualquer um. No que toca à minha roupa, sou igualmente circunspecta. Calças de ganga, camisola de malha e, por baixo, uma camisa de colarinho a sobressair. Nenhum adereço ou maquilhagem em excesso. A maioria das raparigas da minha idade desaprovaria semelhante vestuário, mas é assim que me sinto ajustada à maturidade que toda a gente me atribui.
Nem sempre é fácil viver rodeada de miudagem de atitude histérica e absurdamente impulsiva e emotiva, mas para quando sinto fraquejar a certeza de mim própria tenho as minhas botas. De camurça castanha e suaves ao toque, mantêm-me os pés quentes e bem assentes na terra. Pode soar a algo que a futilidade apregoaria, “as minhas lindas e modernas botas”, mas a verdade é que me fazem sentir segura e confiante. Os meus passos, curtos e apressados, tornam-se decididos e femininos, pelo menos a meu ver. Não sei dizer o que possam ter de especial, até porque não são particularmente espectaculares, mas eu adoro-as e costumo até pensar nelas como o equivalente aos sapatos de Dorothy, a personagem principal do conto infantil “O Feiticeiro de Oz”, excepto que as minhas botas não me transportam entre locais. No entanto, fazendo-me sentir segura num mundo virado do avesso, talvez lhes possa atribuir uma certa dose de magia…
Sentadas lado a lado, Elianor e Harriet trocam palavras abundantes entre si durante a viagem, e sorriem para mim daquela forma gémea que as aproxima em tantas outras coisas. À sua frente, esboço um sorriso, que sei que nunca sairá tão encantador quanto o delas, e mantenho o ar sério que me define.
Às vezes acho que Elianor tenta puxar-me para as conversas que partilha com a filha, mas elas são tão adoráveis naquela beleza que partilham, que sinto repulsa em incomodar e intrometer a minha gravidade. Prefiro ocupar-me revendo mentalmente a ordem com que delineei as várias acções do meu dia. As aulas da manhã, o almoço rápido na cantina, a procura, junto das entidades certas, de certos documentos que preciso entregar na escola, a ida ao ginecologista. De todas, é esta última que mais me incomoda, mas não o demonstro. Não gosto de partilhar a minha privacidade com ninguém, nem mesmo com quem mais admiro e, por isso, respondo grave, e quase friamente, a Elianor quando volta a insistir em acompanhar-me na consulta. Posso não ser tão bela quanto elas, mas adquiri os seus hábitos e conduta, e sei comportar-me como uma senhora educada e discreta. Não quero, nem preciso, de acompanhante algum.

As Botas de Dorothy - Parte Dois

Mudámo-nos há cerca de seis meses para esta zona dos subúrbios devido a um golpe de azar nas finanças da empresa dirigida pelo meu pai. A casa na cidade ficou para trás, sendo substituída por uma casa, também bonita e agradável, mas mais barata, por ser num lugar distante do centro.
No entanto, devo dizer que nem tudo é totalmente desagradável neste novo lugar: quase não há ruído de veículos, não se ouve vivalma durante o dia, um silêncio que tem tanto de compensador como de assustador (não gosto de barulho, mas uma pessoa sente-se sozinha sem o mais pequeno ruído de fundo e os sentidos ficam mais alerta), há imensos espaços verdes e podem fazer-se longas caminhadas e respirar um ar muito mais puro que aquele a que estávamos habituadas.
Elianor e Harriet assumiram a mudança com a habitual tolerância que define o seu comportamento. Elianor chegou mesmo a dizer que não via qualquer problema em morar ali, enunciando em seguida as melhoras características do sítio, que acabei de referir.
De longas madeixas douradas e parcialmente encaracoladas, pele alva, suave, cuidada, Elianor é uma mulher gentil e sensata, com a qual poderia passar horas a conversar. É também uma mulher de uma graça inqualificável: altura e peso perfeitos, maquilhagem usada apenas para realçar os grandes olhos cor-de-azeitona, e vestuário simples, mas absolutamente elegante.
No entanto, é também uma mulher ocupada com a gerência do próprio negócio, pelo que desde sempre me habituei a nunca a interromper ou incomodar. Não que ela fosse tratar-me rigidamente, a julgar pelo sorriso cálido e doce com que brinda a pequena Harriet, a sua filha mais nova, sempre que esta lhe bate à porta do quarto.
Apesar dos cinco anos de idade, Harriet podia ser considerada uma mulherzinha em tamanho reduzido. O cabelo, em tom dourado e curto, confere-lhe simultaneamente um aspecto decidido e descontraído, algo que reverbera a partir dos grandes olhos azuis. Delicada e linda como a mãe, mas divertida como só ela própria, é alguém que sabe agradar ao visitante e atrair as atenções pelas melhores razões possíveis. A conversa educada, o olhar interessado, os gestos tímidos, mas seguros… Por outras palavras, uma princesa em crescimento.

As Botas de Dorothy - Parte Um


Para aquelas que rapidamente se tornam

mulheres pouco convencionais




O meu nome é Olívia e mudei-me recentemente para uma zona afastada da cidade, um pequeno bairro onde as vivendas particulares abundam e onde a pacatez é a palavra de ordem durante todo o dia.
Esta é uma zona em progresso, mas com algumas reminiscências do ruralismo anterior. Está povoada de grandes casas, algumas prontas a estrear ou ainda em construção e, apesar da remotabilidade que quase descreve este lugar, o número de casais jovens que se vem instalar vai aumentando, ainda que lentamente. O acesso através de transportes públicos é, todavia, reduzido, e a partir de certas horas é mesmo impossível, uma vez que o número de autocarros disponíveis para esta zona é praticamente nulo. Assim, as pessoas que destes dependem para se dirigir ao emprego todas as manhãs encontram-se naquele que é o único autocarro que as pode levar dali até ao centro da cidade à hora madrugadora.
Tal como referi, por aqui os rostos novos surgem com lentidão, por isso aqueles que me acompanham na viagem matinal até à cidade são os que aqui moraram toda a vida e cuja família se multiplicou em redor da casa dos progenitores mais antigos. Posso até dizer que o bairro se poderia dividir em diferentes quadrantes, de acordo com o sobrenome predominante.
Reconheço todas as manhãs os mesmos rostos, portanto. As duas estudantes universitárias, de longos cabelos dourados, aspecto jovial e palrador, e pasta negra na mão; a proprietária do café local, uma senhora com cerca de setenta anos, cabelo grisalho e avental azul axadrezado, que traz pela mão a neta mais nova, uma menina de cabelo cor de avelã, bibe cor-de-rosa e voz animada, muito irrequieta; o grupo de seis ou sete raparigas adolescentes, distinguíveis dos restantes pelas roupas de cores berrantes, a maquilhagem forçada e o tom de voz agudíssimo com que, em vocabulário pouco polido, trocam entre si opiniões fúteis sobre determinado tema; o proprietário da tabacaria local, de pernas longas, barriga muito proeminente e cabelo totalmente branco; o irmão da costureira, de fato impecavelmente passado a ferro, sem vestígio de vincos, e bigode farto; por vezes a própria costureira, uma mulher roliça e anafada, de farta cabeleira loira, qual juba de leão, mas que, segundo ouvi, faz magia com a agulha. Há ainda duas outras senhoras, de idade mais avançada, nas quais reparo frequentemente; se não estão a falar uma com a outra como se houvesse um vidro entre ambas, uma mete conversa com qualquer um, sem reparar nos olhares de soslaio que lhe lançam outros, enquanto a outra fala sozinha, respondendo às próprias perguntas, como se estivesse a seu lado um interlocutor que mais ninguém consegue ver.
Os três primeiros lugares do autocarro são, no entanto, ocupados por três mulheres que se distinguem dos restantes pela atitude elegante, clássica, que as reveste dos pés à cabeça. Ou talvez estes sejam os melhores adjectivos a aplicar apenas a Elianor e Harriet, uma vez que eu não nasci tão bonita e distinta quanto elas. Além disso, estou habituada a não dar nas vistas ou a ser olhada uma segunda vez. Não é algo que me incomode, contudo. Cada um deve aceitar o que é e valorizar as suas próprias qualidades. E eu sei comportar-me. Essa é a minha melhor característica.
Não há como não apreciar Elianor e Harriet, quanto mais não seja por se destacarem tão intensamente daqueles que as rodeiam àquela hora do dia. Há gente a falar muito alto; queixumes sobre artroses, dor nas costas e nas pernas, tendência dos maridos para o álcool, do frio que já faz no mero início do Outono, percorrem o ar que embacia os vidros. Elianor, Harriet e eu somos diferentes: trocamos palavras murmuradas, inclinando-nos para perto das outras para melhor sermos ouvidas, e quando voltamos a recostar-nos no banco, ficamos erectas, de mãos descansando no colo e o pescoço direito, enquanto observamos através do vidro com um olhar plácido, inteligente e atento.
Não me interpretem mal; não tenciono descrever-nos como três mulheres de fortuna e mediocridade abastadas, como as que povoam as revistas sobre casamentos e outras festas entre famosos. Não. Somos diferentes simplesmente porque não pertencemos a este meio, e não temos nada em comum com estas pessoas. Não é minha intenção menosprezá-los ou ofendê-los seja de que forma for, mas não se pode esconder que se trata de um meio pouco estimulado, mas antes pleno em intrigas e mexericos de bairro onde absolutamente toda a gente se conhece e de alguma maneira se relaciona consanguineamente, e isso é algo que não nos agrada de todo. Nós estamos habituadas a outro tipo de coisas, mais características do meio urbano, entre as quais a falta de contacto entre vizinhos e a discrição.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Prelúdio

Olá a todos.

Tal como refere o Samuel no post de estreia, este será um espaço dedicado a uma iniciativa entre três amigos que, apesar do background académico diferente, partilham a paixão pela escrita. Espero que sejam muitos aqueles que possam vir a interessar-se por esta ideia e queiram contribuir para o enriquecimento do blog com comentários construtivos e, quem sabe, um texto ou dois.

Serve este post, não para repetir as palavras do Samuel, mas para anunciar que o primeiro texto, da minha autoria, será aqui colocado no dia 25 de Novembro, sendo referente à categoria de escrita livre.

De título As Botas de Dorothy, trata-se de um pequeno conto que escrevi recentemente, e é daquele tipo de ideia que nos surge quando estamos apenas a observar o mundo em redor. Às vezes as coisas que observamos destacam-se muito bem e, portanto, é possível ser rapidamente assaltado pelo impulso de escrever. Noutros casos, como é o desta história, a observação é feita num ambiente comum e, por isso mesmo, a imaginação pode acabar por correr sem que nada o previsse. É como estarmos diante de um campo de flores. Podemos deixar-nos deslumbrar e ir a correr escrever sobre a fantasia e a maravilha do que sentimos ali estando, mas também podemos apenas pensar “Que bonito” e não sermos activados por nada em particular. Nada, até repararmos nalguma coisa à qual se pode chamar de diferente.

E o que é mais interessante, sobretudo do ponto de vista de um autor, é que, aquilo em que reparamos nestas situações, pode não ser aquilo em que repararia outra pessoa. E isso é o que, na minha opinião, torna um olhar especial. E, claro, o objecto da observação, por ter despertado a atenção de um, enquanto os outros continuam a ver através de si.

As Botas de Dorothy é um conto que se enquadra nesta questão. Podia tecer mais algumas considerações, mas seria revelar demasiado para uma história que fala por si.

Até breve,

Joana

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Breve Nota de Apresentação

Bem-vindos ao "Writer's on the Wall"

Neste espaço pretendemos incentivar a produção textual sobre diversas temáticas e sob múltiplas formas.

A ideia-base (da autoria feliz e oportuna da nossa colaboradora Jo F) é, pois, a de criar um espaço activo de produção, partilha e discussão de textos originais entre múltiplos utilizadores.

Para este efeito, julgou-se oportuno elaborar um conjunto de regras ou princípios que regem a organização deste projecto. São as seguintes:

1 - Em cada sessão, um colaborador será convidado a redigir um texto e a partilhá-lo com os restantes visitantes e colaboradores do blog. Todos os colaboradores serão chamados a participar no projecto segundo uma ordem rotativa (Exemplo: 1ª sessão - colaborador A; 2º sessão - colaborador B).

2 - A entrega dos textos deverá respeitar um prazo pré-acordado e definido entre o colaborador e a restante comunidade. Em caso de manifesta impossibilidade de cumprimento dos prazos, o colaborador deverá informar atempadamente a administração do projecto.

3 - Cada sessão apresentará um desafio diferente ao colaborador. Assim, numa primeira sessão poderá ser proposta a elaboração de um "texto livre", ao passo que na seguinte se poderá sugerir a elaboração de um texto partindo de uma imagem pré-fornecida ou de um tópico pré-definido (entre outros desafios). Idealmente, todos os colaboradores terão oportunidade de responder a todos os desafios seguindo a mesma lógica rotativa (Exemplo: colaborador A - Desafio 1; Colaborador B - Desafio 2; Colaborador A - Desafio 2; Colaborador B - Desafio 1).

Serão bem-vindas quaisquer sugestões ou comentários que possam ajudar a melhorar a organização e gestão deste projecto.

Obrigado pelo interesse

Samuel Alexandre