Toda a gente quer a vida que um Gato tem
Trompete. Bateria ao de leve. Piano. O Jazz sobe no ar, envolvendo a sua figura numa aura de confiança inabalável. Afinal, que outro adjectivo aplicar a uma Gata?
A patinha envolta em pêlo branco sobe no ar, imperceptível. Eu leio, sem saber a emboscada que se prepara nas minhas costas. Nem um só, nem um movimento em falso. O objectivo está estabelecido, e eu, na minha condição de humana distraída, não posso fazer nada para contrariar a sua felídea vontade.
E sobe-me uma dor pela nuca. As unhas afiadas perfuram-me a pele do pescoço, enquanto tentam arrancar-me o elástico do cabelo. Grito em irritação, enquanto escondo a pele magoada com a mão e giro a cabeça na direcção da minha atacante.
Sentada naquela forma elegante e soberana, a sua expressão equivale a um encolher de ombros. Afinal, ela quer o elástico. O resto nem sequer se proporciona como válida existência na sua mente.
Observo-a de olhos abertos pelo aborrecimento, mas logo este se desfaz na sua quase totalidade. Se não fosse pelo resquício de dor pelo cabelo arrepanhado, já estava perdida na sua beleza absolutamente dominadora. Toda a figura induz o derreter de qualquer sentimento que não seja o de adoração ou empatia, e tudo nela nos amarra à obrigação de vergar a nossa vontade à sua. O sedoso pêlo cinzento com listas pretas pode mostrar-nos um fenótipo comum entre gatos, mas é o peito alvo que lhe assegura a majestia enquanto as patas, quais pantufinhas de neve, lhe conferem um ar divertido e inocente. Aliás, é esta inocência óbvia que lhe brilha nos olhos grandes de bebé simultaneamente encantadora e soberana que me faz perdoá-la de imediato e regressar, sem mais queixumes, à minha leitura. Na verdade, a perdoada aqui sou eu, como é evidente para qualquer entendimento felino.
A paz está restaurada, mas apenas no meu humilde mundinho sensaborão. Na mente da caçadora nata a vontade não foi saciada. Nas minhas costas, o olhar profundo observa a sua presa colorida e à qual apenas eu sou o obstáculo. Mas, feliz das circunstâncias, sou o obstáculo irrisoriamente fácil de contornar. Na verdade, estou a atribuir-me uma importância não realista. Ela quer o elástico. Tudo o resto nem sequer se proporciona como válida existência na sua mente.
O ritmo jazzy envolve a sua presença. Afinal, não é o ritmo que envolve todo o mundo interior de um gato? Toda a gente quer a vida que um gato tem.
A pantufa de neve sobe novamente. A presa está tão perto.
Exclamo o seu nome em tom de ameaça: Tuala!