Tal como referi anteriormente, as “Botas de Dorothy” é uma pequena história que escrevi há relativamente pouco tempo, à cerca de uma rapariga que partilha comigo as magníficas viagens de autocarro quase todas as manhãs. A rapariga, à qual atribuí o nome de Olivia, é real, mas nada sei sobre ela à parte daquilo que me inspirou e levou ao nascimento desta pequena história. Nada do que escrevi é seguramente verdadeiro ou biográfico, apenas produto da imaginação. O certo é que a rapariga em questão, com os seus passos/saltinhos (estes sim, são reais) se fazia acompanhar de vez em quando por uma senhora e uma criança, de facto diferentes dela, o que, de alguma maneira, activou o meu sistema imaginário.
Na verdade, não sei se serão sequer da mesma família, mas como escolhiam os lugares da frente do autocarro, sentando-se juntas e partilhando algumas palavras, imaginei como se sentiria uma rapariga, tão diferente da mãe e da irmã, excepto na atitude composta e cuidada. Seria de propósito? Seria uma defesa?
E depois há os referidos “saltinhos” que inspiraram a Olivia, os quais desde início me fizeram crer que se tratava daquilo a que se pode chamar “uma mulher em ponto pequeno”. Uma certa atitude e firmeza, apenas naqueles passinhos, criaram toda uma personagem que, associada à diferença entre si e as outras que a acompanhavam, acabou por se tornar na minha Olivia. Minha porque não sei quanto dela será real.
Outro ponto que acho particularmente engraçado são as botas. Bom, quando dei a ler a história a várias pessoas, muitas me perguntaram se se tratava de um texto autobiográfico. A isto só posso responder que de autobiográfico tem a parte final, em itálico, que retrata a minha verdadeira visão sobre a rapariga a que chamo Olivia, as pessoas e o ambiente do autocarro e dos subúrbios onde mora Olivia, e... as botas. Quem conhece a pequena Dorothy saberá certamente que não eram botas que ela tinha, mas sim sapatos. Estes permitiam-lhe transportá-la entre lugares. De modo que tentei criar um trocadilho entre as minhas botas, também uma parte real desta história (estou a usá-las neste momento...) e que de facto me fazem sentir muito bem, e o facto de Olivia poder colocar num objecto uma importância, uma magia, que à partida a faz sentir bem num mundo em que precisa de fingir para mostrar que está à altura.
Isto leva-me a outro ponto que tentei focar nesta história: a àltura de quê, afinal?. Será a mãe que a coloca naquela posição que a obriga a dar mais de si do que seria de esperar de uma adolescente? Ou será uma escolha da própria Olivia? Confesso que nem eu posso responder. Eu não sei.
Portanto, em resumo, eram essencialmente três os pontos que decidi focar ao escrever esta história. A relação com a mãe, que só é revelada no fim, a maturidade imposta/escolhida por uma menina de apenas quinze anos e, claro, a magia das pequenas botas como objecto capaz de criar algum ânimo em alguém que cresceu demasiado depressa.
Não querendo aborrecê-los mais, espero que tenham gostado e que possamos trocar mais alguns textos num futuro breve.
Em nome do blog, aproveito também para deixar os votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, em especial no campo das letras.
Joana