segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sobre "As Botas de Dorothy"

Tal como referi anteriormente, as “Botas de Dorothy” é uma pequena história que escrevi há relativamente pouco tempo, à cerca de uma rapariga que partilha comigo as magníficas viagens de autocarro quase todas as manhãs. A rapariga, à qual atribuí o nome de Olivia, é real, mas nada sei sobre ela à parte daquilo que me inspirou e levou ao nascimento desta pequena história. Nada do que escrevi é seguramente verdadeiro ou biográfico, apenas produto da imaginação. O certo é que a rapariga em questão, com os seus passos/saltinhos (estes sim, são reais) se fazia acompanhar de vez em quando por uma senhora e uma criança, de facto diferentes dela, o que, de alguma maneira, activou o meu sistema imaginário.

Na verdade, não sei se serão sequer da mesma família, mas como escolhiam os lugares da frente do autocarro, sentando-se juntas e partilhando algumas palavras, imaginei como se sentiria uma rapariga, tão diferente da mãe e da irmã, excepto na atitude composta e cuidada. Seria de propósito? Seria uma defesa?

E depois há os referidos “saltinhos” que inspiraram a Olivia, os quais desde início me fizeram crer que se tratava daquilo a que se pode chamar “uma mulher em ponto pequeno”. Uma certa atitude e firmeza, apenas naqueles passinhos, criaram toda uma personagem que, associada à diferença entre si e as outras que a acompanhavam, acabou por se tornar na minha Olivia. Minha porque não sei quanto dela será real.

Outro ponto que acho particularmente engraçado são as botas. Bom, quando dei a ler a história a várias pessoas, muitas me perguntaram se se tratava de um texto autobiográfico. A isto só posso responder que de autobiográfico tem a parte final, em itálico, que retrata a minha verdadeira visão sobre a rapariga a que chamo Olivia, as pessoas e o ambiente do autocarro e dos subúrbios onde mora Olivia, e... as botas. Quem conhece a pequena Dorothy saberá certamente que não eram botas que ela tinha, mas sim sapatos. Estes permitiam-lhe transportá-la entre lugares. De modo que tentei criar um trocadilho entre as minhas botas, também uma parte real desta história (estou a usá-las neste momento...) e que de facto me fazem sentir muito bem, e o facto de Olivia poder colocar num objecto uma importância, uma magia, que à partida a faz sentir bem num mundo em que precisa de fingir para mostrar que está à altura.

Isto leva-me a outro ponto que tentei focar nesta história: a àltura de quê, afinal?. Será a mãe que a coloca naquela posição que a obriga a dar mais de si do que seria de esperar de uma adolescente? Ou será uma escolha da própria Olivia? Confesso que nem eu posso responder. Eu não sei.

Portanto, em resumo, eram essencialmente três os pontos que decidi focar ao escrever esta história. A relação com a mãe, que só é revelada no fim, a maturidade imposta/escolhida por uma menina de apenas quinze anos e, claro, a magia das pequenas botas como objecto capaz de criar algum ânimo em alguém que cresceu demasiado depressa.

Não querendo aborrecê-los mais, espero que tenham gostado e que possamos trocar mais alguns textos num futuro breve.

Em nome do blog, aproveito também para deixar os votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, em especial no campo das letras.

Joana

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Dulcineia


Boas

Por sugestão da Joana, publico um excerto de um texto que não sei ao certo como definir. Amostra de romance, ensaio, autobiografia ou poema-em-prosa, este pequeno "monstrinho" há muito que me vem perturbando e seduzindo, sem que eu saiba ao certo que rumo definitivo lhe dar.

Por tudo isto, o mesmo texto deverá ser lido e interpretado como resumo, rabisco, obra em curso e sujeita a futuras alterações ou, porventura, destruição total. (O que é evidente dada a curta extensão dos capítulos os sinais "+", etc.)

Sabendo que seria aborrecido e desnecessário alongar-me muito em explicações sobre a natureza e temática do texto, deixarei apenas algumas considerações prévias que talvez facilitem a leitura. Se houver interesse ou necessidade de esclarecer algum ponto, responderei num comentário futuro.

- a epígrafe retirada do "Dom Quixote" traduz-se para algo como "Se vo-la mostrasse que faríeis vós em confessar uma verdade tão evidente?" e é a resposta dada pelo mesmo Quixote a todos aqueles que têm relutância em afirmar que Dulcineia seja a mais bela das mulheres apenas por nunca a terem visto. Para Quixote, jurar depois de ver seria fácil, inútil e de pouco valor. Fica assim talvez mais claro o título "Dulcineia" que funciona como nome alternativo para Marta (a mulher "imaginária" com quem dialoga o narrador) e também o trocadilho final "escrever-te-ei no próximo capítulo" = ("escrever-lhe-á", mas também " escrevê-la-á").

- a epígrafe de Eugénio de Andrade pretende simbolizar a dificuldade de comunicação e demonstração de afecto entre duas pessoas (que se relaciona também com o tema da problemática relação entre Linguagem e Realidade)

- Se o primeiro capítulo está mais próxima da forma do romance propriamente dito, o segundo é maioritariamente um ensaio, um caderno de apontamentos de temas a desenvolver ao longo da história (daí as reflexões, as citações, etc.)


Dulcineia

"Si os la mostrara qué hiciérades vosotros en
confessar una verdad tan notoria?"

Don Quijote




"Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias"

Eugénio de Andrade


I


.... E tudo era como se por um instante secreto fosse possível saltar o muro e transpor a cortina espessa que nos policiava o desejo.

- Oh, mas sem melodramas...

Sim, sim, de acordo. Áspera, fria e cortante - a tua voz. (É a voz da "minha mulher") E todavia sempre sincera, suave e delicada. Será isto um paradoxo? Queimando como a brasa que nos consome as mãos para depois as confortar e defender no rasto delicado da sua combustão...
(Porque também pode haver carinho no simples acto de destruir, desfazer ou insultar...).

Ou talvez eu te reduza, desfigure e diminua ao procurar atribuir assim um certo travo assassino ao que em ti era puro, instintivo, natural - o falar.

E depois tu nunca foste mulher de segundas intenções. O teu discurso exacto, preciso como um golpe desferido, disparado à queima-roupa. As acções perfeitamente reguladas, coordenadas sob disciplina militar.

Ah, como é fácil e reconfortante sonhar com monstros no escuro! O conforto quente que nos oferece o cultivar de um temor, submissão! "Se os não podes vencer, aceita as suas condições." - é a fórmula da prudência dos cansados e da cobardia dos activos. Mas hoje estou cansado e passou o tempo dos projectos...

+++

E a minha teimosia, insistência ou convicção em te falar de um tempo em que (+++) e tudo era como se...

II

Writer's block. A folha em branco, a caneta à tua espera. Que dizer? Falta-me a fé, coragem, ingenuidade ou puro e simples descaramento. A torre de marfim ruiu, estou só e sem desculpas.

E, no entanto, há que vestir o fato de gala, ter maneiras, ser sociável, agradecer e justificar o que já não nos pertence. Egoísta? E como sê-lo? Pesas conceitos, colas metáforas, limas arestas e, no fim de contas, serás sempre traído pela mesma matéria que possibilita a criação. Nunca se diz o que se queria dizer, mesmo que tudo esteja certo...

Ácidas, amargas, frontais, dissimuladas e, porventura, sempre escassas, incompletas, imperfeitas - as palavras. Uma definição ou simples entrada de dicionário - que fictícia confiança...

Definir é reduzir, restringir, delimitar. Catalogar conceitos e arrumá-los para escapar ao abismo do caos, para silenciar o vazio que nunca preenches. A realidade arredondada, aproximada como o 3,14159... O que é a verdade? Qui es veritas? (S.João, 18:38).

A linguagem limita e apazigua. Porque ela nasce talvez da dolorosa constatação da ausência de um princípio ordenador, e foi talvez por isso que o próprio Adão não resistiu à terrível tentação de nomear a realidade (Génesis, 2:19). Porque ela não é um simples meio ou ferramenta necessária à apreensão do Real, mas o próprio Real que descreves e interpretas, e nada existe enquanto não se revela através dela ao teu olhar ... ("The limits of my language mean the limits of my world" - Wittgenstein)

E, no entanto, escreves, insistindo em lutar contra o impossível. (E que outra luta vale a pena?)
Porque o mistério perturba e não estamos calados.
Porque no fim de contas sabes que tudo o que verdadeiramente importa extravasa para lá das correntes dos sintagmas, núcleos nominais, substantivos, morfemas e alomorfes...

E que o azul é muito mais que um nome que tu dás a uma sensação experimentada na observação de um espectro de luz compreendido entre os comprimentos de onda de 440 a 490 nm.
Azul turquesa, azul celeste, azul bebé. Azul líquido e fictício nos teus olhos que nunca foram azuis... - Marta.

Minha ficção das horas vagas, meu amor de papel.
Não serás então nada mais que um calmante? A almofada coçada onde deitamos a cabeça para dormir e esquecer? Enfermeira nocturna, prostituta irreal, lenitivo doce... Pretexto vazio e disfarce fraco de uma degenerescência crónica, da minha virilidade ameaçada e instável como um par de calças com remendos...

Palavras, palavras... São a forma mais fácil e económica de dizer o que se não pensa.
De facto, que tens tu que ver com metáforas alheias?

Tu és tu e tu apenas - tudo o resto é circunstancial.

(Tudo o resto é entretenimento de literatos desempregados que se reflectem ironicamente num jogo de espelhos escrevendo sobre literatos desempregados que inventam piadas sem graça sobre literatos que se miram ao espelho...)

E, no entanto, o teu nome... - Marta. Há tanto tempo, porquê agora ainda? Segue-me para a toda a parte como um mendigo ou cão vadio a quem recusássemos a custo a companhia ou a esmola.

Mas devia despachar-me: tenho uma história a contar. Vou descansar um momento, escrever-te-ei no próximo capítulo.


domingo, 14 de dezembro de 2008

Boas

Não tendo sido capaz de cumprir os prazos estabelecidos, deixo à consideração dos restantes colaboradores a opção de publicarem por sua iniciativa alguns textos seus que entretanto tenham disponíveis.

Pela minha parte, tratarei de publicar aqui no blog a referida "Carta" (ou qualquer outro tipo de texto original que possa escrever entretanto) assim que qualquer um destes se encontre acabado.


Bom Natal e Feliz Ano Novo

Samuel

sábado, 6 de dezembro de 2008

Prefácio a uma "Carta a um futuro filho"

Olá de novo.

Após uma estreia "em grande" possibilitada pela publicação de um belo texto da nossa colaboradora Jo F, cabe-nos desde já confessar as nossas dificuldades em cumprir os prazos relativos à publicação do texto seguinte.

Perante as referidas dificuldades, comprometi-me a publicar o próximo texto que vos passarei a apresentar. A publicação do mesmo será feita no próximo fim de semana (13/14). Esta demora adicional explica-se pelo facto de, por um lado, esta se tratar de uma solução de recurso, e o referido texto ainda não se encontrar redigido e, por outro lado, pela limitada disponibilidade que o final de um semestre de Mestrado nos oferece. Por este facto, apresento as minhas desculpas.

Todos nós conhecemos inúmeros títulos estranhos, misteriosos e sugestivos que suscitam múltiplas interpretações. "Carta a um futuro filho", decerto, não se incluirá neste lote.

De facto, sobre um título tão simples e claro, o que se poderá dizer ao leitor de modo a que este não julgue arrogante ou desnecessária a redacção deste prefácio?

"Porquê uma carta?" - é uma pergunta possível.

Talvez por este género textual ser o que mais facilmente me permite expressar a preferência pelo recurso a um narrador de 1ª pessoa, protagonista da "história" (autodiegético) e o seu necessário diálogo, apelo ou rejeição de um "tu" a quem se dirige. Talvez ainda por, neste caso específico, não se tratar verdadeiramente de um diálogo (não há a resposta do "filho"), mas de um desejo de diálogo e, tal como na vida real, não podermos falar pela boca dos outros mas apenas pela nossa.

"Porquê a um futuro filho?" - outra boa pergunta

Neste ponto sinto-me tentado a apelar à sensibilidade e compreensão das minhas leitoras... Mas, em pleno século XXI, será ainda educado ou correcto acreditar em "instintos maternais"?

Conheço feministas que não me perdoariam este vergonhoso ataque ao reconhecimento da sua liberdade sexual, esta velha referência e confiança no sonho feminino de "ser mãe". (Aliás... As mesmas feministas poderiam certamente reflectir demoradamente sobre a minha escolha por um "filho" e não por uma "filha") Adiante...

E o que pensará um homem sobre esta questão? Aqui a coisa complica-se porque, como é de conhecimento geral, as "coisas de homens" não se contam a mulheres..... nem a homens.

Quantos de nós possuem (por vezes até sem o saber) o sonho de terem um/a filho/a? Não sendo esta uma mera pergunta retórica, não sei avaliar até que ponto os leitores se poderão identificar com a temática deste texto... (De resto, aproximando-se a quadra natalícia, talvez a temática escolhida possa recuperar um pouco da simbologia cristã do milagre de um nascimento desejado).

Resta-me assim apenas desejar que o assunto escolhido não seja sentido como demasiado pessoal ou autobiográfico e que, partindo de um desejo e sentimento reais do autor do texto, possa, todavia, suscitar algum interesse aos seus leitores.

Até ao próximo fim-de-semana

Samuel