Como já todos participámos com as nossas histórias, começa uma nova rodada. Nesta minha segunda vez, resolvi mostrar um capítulo de um conto que comecei a escrever o ano passado, e que se encontra ainda por terminar. A história, contudo, e ao contrário do que sempre me aconteceu, surgiu quase como um todo na mesma hora (no meu segundo dia no Mestrado em BCM). Estava no bar e, de súbito, peguei na caneta e planeei-a quase totalmente. Muito raro em mim, já que nunca sei onde vão parar as minhas histórias.
Apesar de ainda não ter terminado, está um pouco grandinha, de modo que só posso colocar aqui uma pequena parte. A história, tal como indica o título, é sobre uma princesa que definha desde o dia em que algo de muito estranho aconteceu diante de si. Miranda ainda não sabe o que fez, nem sequer sabe que o fez, mas ao saber, quereria voltar atrás?
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O Lago
Na tarde em que seu pai conversara consigo sobre a urgência do seu casamento, Miranda saiu do Castelo e dirigiu-se ao Jardim. Era livre de o fazer sempre que quisesse, mas dessa vez fez por passar despercebida aos olhos das criadas e da sua ama, e ficou satisfeita ao perceber que o conseguira. Aparentemente, ninguém a vira sair dos seus aposentos e Miranda sentiu pela primeira vez gratidão pela chegada de outro pretendente, pois mantinha toda a gente ocupada e ela pudera sair sem responder a perguntas. Aquele era um dia triste, a julgar pela cor cinzenta do céu. Se alguém a visse naquele momento, apressar-se-iam a detê-la e a tentar convencê-la de que apanharia um resfriado ou que poderia chover ou que seria mais adequado se se ocupasse com qualquer outra coisa. E a Miranda não lhe apetecia mais do que passear pelo Jardim sem ser incomodada. Além disso, se ninguém soubesse onde estava, levaria algum tempo até ser encontrada.
Miranda atravessou o grande portão que separava o Jardim do Castelo e caminhou calmamente, certa de que cada passo que dava a aproximaria mais da acalmia que desejava para o seu coração e espírito. Passo após passo, Miranda avançava, na direcção do coração do Jardim, ouvindo apenas o roçagar do vestido de cetim encarnado nas pernas e o ruído abafado dos seus pés sobre o tapete almofadado de erva viçosa. Em seu redor, nenhum outro som se ouvia. Mas Miranda não se importava. Silencioso ou musical, o seu Jardim era sempre o melhor lugar do Mundo e não havia outro onde se sentisse tão segura e protegida.
Momentos mais tarde, Miranda deteve-se junto de uma macieira. Aproveitando para descansar da caminhada, observou durante instantes o céu taciturno, onde deambulavam, muito lentamente, nuvens brancas. Olhou em redor. Não havia pássaros no céu, nem tão pouco se ouviam os seus habituais cânticos por entre as folhagens das árvores. Também não havia vento que as fizesse balançar. Miranda encostou-se ao tronco, inspirando e expirando o ar lentamente. Imaginou o que diriam aqueles que acreditavam que o Jardim estava intimamente relacionado consigo se a observassem e soubessem o que sentia naquele momento. A Princesa, sentindo-se presa a um destino que alguém escolhera por si, o coração apertado, inquieto, taciturno, passeando no seu Jardim silencioso, imóvel, coberto por um véu pálido e frio. Apesar de achar aquele um quadro triste, Miranda não pôde deixar de sorrir divertida, ainda que tenuemente, ao pensar em quantas mais histórias e paranóias poderiam dali surgir se o contasse a alguém.
Ao fim de algum tempo, afastou-se da macieira e tocou numa das maçãs. Estava tudo em ordem. Os frutos cresciam, as folhas eram verdes e viçosas, o Jardim prosperava. Apenas não manifestava a sua vivacidade, ao contrário do que acontecia nos outros dias. Mas Miranda não estranhava o comportamento estranho do seu Jardim. Havia dias bons e dias menos alegres e, para si própria e para o seu querido Jardim, aquele podia perfeitamente ser um desses dias.
Alisando as saias do vestido com os dedos, Miranda preparou-se para caminhar mais um pouco. Dessa vez, deteve-se apenas junto do Espelho de Prata, o Lago que marcava o coração do Jardim. Sentou-se na margem de pedra e observou o Castelo, situado na direcção poente do Jardim e de onde, àquela distância, ninguém veria não mais do que uma figura indistinta.
Ignorando novamente o Castelo, a Princesa rodou a cabeça e observou o seu reflexo na água cristalina do Lago. Retribuía-lhe o olhar um rosto de contornos graciosos e expressão tranquila, adornado pelos cabelos escuros e compridos herdados do pai, contudo marcado pela profunda e calma melancolia dos olhos cor de azeitona, herdados da mãe. Silenciosa, Miranda desfez o reflexo dos seus olhos passando a ponta do dedo na água fria. Não havia outra alternativa, senão aquela decidida pelo pai. É para seu próprio bem, como dizem todos em seu redor. Então por que não se convence disso? Por que continua a esperar por algo que nunca virá? E, naquele momento, Miranda sentiu-se invadir por uma onda de temor, não só pela tristeza que o seu coração extravasava, mas também pela força que crescia dentro de si e que Miranda reprimia sempre. Agora ela jorrava, e Miranda não podia detê-la. Queria gritar, fugir, fazer alguma coisa antes de sucumbir às mãos daqueles que a pretendiam dominar.
Quando Miranda voltou a olhar para a água, o seu reflexo estava novamente recomposto, mas havia uma pequena diferença no rosto que a observa, algo que o tornava diferente, apesar de ser gémeo do seu. Os olhos. Não eram mais cor de azeitona e havia uma espécie de faísca dentro de cada um, rodopiando incessantemente e exercendo em si um efeito hipnotizador. De súbito, o rosto líquido ficou parcialmente desfeito pelo raio de sol que incidiu na água. Miranda estremeceu ao sentir o cálido abraço do Sol e levantou o queixo na direcção do céu, onde o astro vencia o cinzento frio daquela tarde. Algures ali perto soou o pio de uma ave. O Jardim parecia aperceber-se só então da presença da sua Princesa, oferecendo-lhe, tal como antes, as suas cores, os seus perfumes, a sua beleza. Sem nada entender, Miranda ergueu-se e olhou em redor, indecisa sobre o que pensar. Assim se quedou durante algum tempo, fixando atentamente o Jardim que a envolvia e que lhe acalmava o espírito.
Quando conseguiu dominar a respiração e a força que quase a subjugara voltou-se novamente para o Lago, mas o seu reflexo desaparecera. Em seu lugar, surgira um cavalo negro, de olhos tão negros e profundos quanto os do cavaleiro que o montava. Este observava a Princesa atentamente, o cabelo e a capa negros esvoaçando com um vento que soprava de lado nenhum e que não se fazia sentir em redor.
Quase no mesmo instante em que o vira, Miranda sentiu o seu coração apertado e arrancado do seu peito por uma mão invisível. O olhar do cavaleiro abraçava-a numa escuridão profunda, enquanto uma dor lancinante a fazia perder a sensibilidade ao chão que pisava. Quando Miranda se sentiu cair, o cavalo empinou as patas dianteiras e relinchou ferozmente, desaparecendo em pleno ar, juntamente com o cavaleiro. Antes dos seus olhos se fecharem, Miranda ouviu um grito agudo e desumano, ao mesmo tempo que vislumbrava uma figura radiosa e ofuscante descendo sobre si…
Na tarde em que seu pai conversara consigo sobre a urgência do seu casamento, Miranda saiu do Castelo e dirigiu-se ao Jardim. Era livre de o fazer sempre que quisesse, mas dessa vez fez por passar despercebida aos olhos das criadas e da sua ama, e ficou satisfeita ao perceber que o conseguira. Aparentemente, ninguém a vira sair dos seus aposentos e Miranda sentiu pela primeira vez gratidão pela chegada de outro pretendente, pois mantinha toda a gente ocupada e ela pudera sair sem responder a perguntas. Aquele era um dia triste, a julgar pela cor cinzenta do céu. Se alguém a visse naquele momento, apressar-se-iam a detê-la e a tentar convencê-la de que apanharia um resfriado ou que poderia chover ou que seria mais adequado se se ocupasse com qualquer outra coisa. E a Miranda não lhe apetecia mais do que passear pelo Jardim sem ser incomodada. Além disso, se ninguém soubesse onde estava, levaria algum tempo até ser encontrada.
Miranda atravessou o grande portão que separava o Jardim do Castelo e caminhou calmamente, certa de que cada passo que dava a aproximaria mais da acalmia que desejava para o seu coração e espírito. Passo após passo, Miranda avançava, na direcção do coração do Jardim, ouvindo apenas o roçagar do vestido de cetim encarnado nas pernas e o ruído abafado dos seus pés sobre o tapete almofadado de erva viçosa. Em seu redor, nenhum outro som se ouvia. Mas Miranda não se importava. Silencioso ou musical, o seu Jardim era sempre o melhor lugar do Mundo e não havia outro onde se sentisse tão segura e protegida.
Momentos mais tarde, Miranda deteve-se junto de uma macieira. Aproveitando para descansar da caminhada, observou durante instantes o céu taciturno, onde deambulavam, muito lentamente, nuvens brancas. Olhou em redor. Não havia pássaros no céu, nem tão pouco se ouviam os seus habituais cânticos por entre as folhagens das árvores. Também não havia vento que as fizesse balançar. Miranda encostou-se ao tronco, inspirando e expirando o ar lentamente. Imaginou o que diriam aqueles que acreditavam que o Jardim estava intimamente relacionado consigo se a observassem e soubessem o que sentia naquele momento. A Princesa, sentindo-se presa a um destino que alguém escolhera por si, o coração apertado, inquieto, taciturno, passeando no seu Jardim silencioso, imóvel, coberto por um véu pálido e frio. Apesar de achar aquele um quadro triste, Miranda não pôde deixar de sorrir divertida, ainda que tenuemente, ao pensar em quantas mais histórias e paranóias poderiam dali surgir se o contasse a alguém.
Ao fim de algum tempo, afastou-se da macieira e tocou numa das maçãs. Estava tudo em ordem. Os frutos cresciam, as folhas eram verdes e viçosas, o Jardim prosperava. Apenas não manifestava a sua vivacidade, ao contrário do que acontecia nos outros dias. Mas Miranda não estranhava o comportamento estranho do seu Jardim. Havia dias bons e dias menos alegres e, para si própria e para o seu querido Jardim, aquele podia perfeitamente ser um desses dias.
Alisando as saias do vestido com os dedos, Miranda preparou-se para caminhar mais um pouco. Dessa vez, deteve-se apenas junto do Espelho de Prata, o Lago que marcava o coração do Jardim. Sentou-se na margem de pedra e observou o Castelo, situado na direcção poente do Jardim e de onde, àquela distância, ninguém veria não mais do que uma figura indistinta.
Ignorando novamente o Castelo, a Princesa rodou a cabeça e observou o seu reflexo na água cristalina do Lago. Retribuía-lhe o olhar um rosto de contornos graciosos e expressão tranquila, adornado pelos cabelos escuros e compridos herdados do pai, contudo marcado pela profunda e calma melancolia dos olhos cor de azeitona, herdados da mãe. Silenciosa, Miranda desfez o reflexo dos seus olhos passando a ponta do dedo na água fria. Não havia outra alternativa, senão aquela decidida pelo pai. É para seu próprio bem, como dizem todos em seu redor. Então por que não se convence disso? Por que continua a esperar por algo que nunca virá? E, naquele momento, Miranda sentiu-se invadir por uma onda de temor, não só pela tristeza que o seu coração extravasava, mas também pela força que crescia dentro de si e que Miranda reprimia sempre. Agora ela jorrava, e Miranda não podia detê-la. Queria gritar, fugir, fazer alguma coisa antes de sucumbir às mãos daqueles que a pretendiam dominar.
Quando Miranda voltou a olhar para a água, o seu reflexo estava novamente recomposto, mas havia uma pequena diferença no rosto que a observa, algo que o tornava diferente, apesar de ser gémeo do seu. Os olhos. Não eram mais cor de azeitona e havia uma espécie de faísca dentro de cada um, rodopiando incessantemente e exercendo em si um efeito hipnotizador. De súbito, o rosto líquido ficou parcialmente desfeito pelo raio de sol que incidiu na água. Miranda estremeceu ao sentir o cálido abraço do Sol e levantou o queixo na direcção do céu, onde o astro vencia o cinzento frio daquela tarde. Algures ali perto soou o pio de uma ave. O Jardim parecia aperceber-se só então da presença da sua Princesa, oferecendo-lhe, tal como antes, as suas cores, os seus perfumes, a sua beleza. Sem nada entender, Miranda ergueu-se e olhou em redor, indecisa sobre o que pensar. Assim se quedou durante algum tempo, fixando atentamente o Jardim que a envolvia e que lhe acalmava o espírito.
Quando conseguiu dominar a respiração e a força que quase a subjugara voltou-se novamente para o Lago, mas o seu reflexo desaparecera. Em seu lugar, surgira um cavalo negro, de olhos tão negros e profundos quanto os do cavaleiro que o montava. Este observava a Princesa atentamente, o cabelo e a capa negros esvoaçando com um vento que soprava de lado nenhum e que não se fazia sentir em redor.
Quase no mesmo instante em que o vira, Miranda sentiu o seu coração apertado e arrancado do seu peito por uma mão invisível. O olhar do cavaleiro abraçava-a numa escuridão profunda, enquanto uma dor lancinante a fazia perder a sensibilidade ao chão que pisava. Quando Miranda se sentiu cair, o cavalo empinou as patas dianteiras e relinchou ferozmente, desaparecendo em pleno ar, juntamente com o cavaleiro. Antes dos seus olhos se fecharem, Miranda ouviu um grito agudo e desumano, ao mesmo tempo que vislumbrava uma figura radiosa e ofuscante descendo sobre si…
2 comentários:
Como já tem vindo a ser habitual, a nossa amiga Joana volta a deliciar-nos com mais uma das suas pequenas histórias. "Pequenas" só em extensão, evidentemente.
De resto, mesmo neste pequeno texto é possível apreciar alguns dos principais talentos da sua escrita: a atenção ao detalhe, o poder de evocação de ambientes "mágicos". Mágicos, sobretudo, pelas sensações que despertam no leitor. Paz, ternura, um incerto desejo de partir...
É nesse sentido múltiplo e rico que me refiro à "magia" da sua escrita e que espero que possamos usufruir da mesma durante muitos e bons anos.
Muito obrigada Samu. É sempre espectacular ver as tuas opiniões. Soam-me sempre à opinião de uma espécie de professor, apesar de escrevermos de forma tão diferente e sobre temas tão opostos. É, sobretudo, devido ao facto de parecer sempre que tu vais ao cerne da questão, mesmo quando eu própria não me apercebo daquilo que me está a sair.
Ter uma pessoa assim atenta ao nosso trabalho é tranquilizante.
Beijinho,
Joana
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