segunda-feira, 2 de março de 2009

Postal

O pequeno texto que se segue é a resposta a um desafio de escrita criativa baseado na redacção de um texto a partir de uma imagem previamente sugerida. Neste caso, confesso ter feito alguma "batota" ao preferir uma imagem de Verão à que me tinha sido originalmente sugerida pela Joana (sorry!). Espero, todavia, que o resultado final possa de alguma forma compensar esta pequena infracção.

Quanto ao texto propriamente dito, trata-se de mais uma das minhas habituais "descrições poéticas". Curiosamente, acabei por optar por um cenário mais luminoso e alegre do que me é habitual. Por outro lado, acabou por sair uma coisa mais sentimental e auto-biográfica do que teria desejado, embora espere que, pelo menos, não seja deprimente ou entediante.


A "história" baseia-se vagamente num incidente ocorrido no meu 9º ano, numa tarde de Verão no Choupal, à beira-rio. A Soraia é por isso talvez o retrato poético dessa paixão de então, embora possa (e deva) representar qualquer mulher.





É uma paisagem deserta, secreta, abandonada. Que temos nós que fazer aqui? Estendo o braço a Soraia, tomo-lhe as mãos avidamente. Numa ânsia absurda de te sentir e preservar, no desespero hipotético de poderes já não estar ali.

Desce sobre nós o anúncio do poente, uma promessa de paz. Uma toalha de lume enxuga-lhe a face, um derrame laranja que lhe escorre pelos seios, pelo ventre, pelas pernas. E, de novo, as mãos. Aladas, avulsas. Observo-as distante, espectador atento da sua fúria louca, do seu assalto ao acaso. O acaso...

Dói-me pensá-lo no ocaso estival, neste fim de tarde junto ao mar. O mar imenso que se estende ao infinito, a maresia que me invade as narinas e preenche cada poro do meu ser. Sentamo-nos num banco isolado, esperando uma razão para estarmos ali, e assim permanecemos mudos, em imobilidade perfeita. Mas nada disto está certo... Sabe-o Soraia no murmúrio obscuro de uma oculta sintonia, num incerto apelo ao movimento. É uma voz suave e, todavia, inquestionável. Talvez a voz de um búzio que colhias entretanto...

Até que, felina e selvagem, ergues-te de um salto. Vejo-te fugir pelo areal numa corrida louca e inocente, e o meu olhar persegue-te e mergulha contigo no embalo das ondas. Deusa marinha chapinhando no azul, sereia lustrosa sorrindo no silêncio vespertino. Uma estúpida e insuportável onda de ternura sobe-me pelo corpo, bate-me em cheio na face. Sustenho o sal das lágrimas (há sal bastante no horizonte...).

Levanto-me, enfim, do meu refúgio. Respiro fundo a brisa marinha, procuro ainda desentorpecer um outro músculo mais obstinado. Vigilante desperta, Soraia solta um pequeno grito e estende o braço na minha direcção. Acedo ao seu convite e acelero desajeitadamente pelo areal. Alcanço-a por fim num abraço fluido e, por um momento, fecho os olhos e esqueço tudo à minha volta.

- Tontinho... Eu estou aqui. O que se passa?

A tua voz tão terna e maternal, numa leve repreensão.

- Fecha os olhos. Não digas nada...

Enquanto as minhas mão submersas e unidas em concha se erguem tiritantes sobre o teu rosto e te sagram num baptismo secreto e primordial.
E tu abriste os olhos e sorriste do meu gesto excêntrico e despropositado.
E eu permaneci hirto e ridículo, com as faces coradas e os lábios entreabertos esperando o beijo que não te soube dar.


2 comentários:

Jo F disse...

Confesso que ia começar por barafustar "docemente" com a pequena batota que o nosso caríssimo Samu resolveu fazer, mas perante este texto, sou mais do que forçada a engolir qualquer outra coisa que não seja encanto. Confesso também que muitos dos seus textos que já li têm aquele quê de tristeza e fatalidade que sempre me entristecem, mas que estando tão bem escritos são tão fáceis de admirar. Este, no entanto, não chamarei de triste ou fatal. Antes de belo, profundo, tão magnificamente escrito e descrito.
Adorei. Em particular certas passagens que, por serem numerosas, resolvi não citar. Gostei mesmo muito; a escrita está magnifica e a imagem criada pelas palavras chega a pôr a imagem de pixels a um canto.
Aprovo. Aplaudo. Recomendo.

Jo F disse...

Nunca mais ninguém disse nada...