O fogo
E se eu acendesse a lareira? Sempre entretém e aquece… É Janeiro e está um frio de rachar, mas já alguém o disse antes de mim… Acendo? Não acendo? Estou sentado no sofá da sala e espreito a noite e as estrelas pelo canto do meu olhar absorto nas banalidades da TV. São curtos estes dias de Inverno… O sol levanta-se sem pressas e despede-se sem cerimónias. Há quem chore baba e ranho pelas longas tardes de Verão, mas eu não me ralo. Prefiro o sossego e o silêncio ao estardalhaço impúdico dos serões de Agosto.
Ainda assim tenho frio e devia mesmo acender a lareira.
- Irra, que tens sempre as mãos geladas!
É verdade, embora a minha mãe pareça espantar-se pela milionésima vez. Tenho sempre as mãos frias em qualquer altura do ano, mas nos dias mais frios chegam mesmo a ficar roxas e com algumas pintas alaranjadas. Má circulação arterial, talvez?
Decidido e enregelado, levanto-me finalmente do sofá e saio de casa em direção ao pátio e à casa da caldeira. A lenha está por cima de uma prateleira e espalhada um pouco ao acaso pelo chão da pequena arrecadação. Pinho, oliveira, laranjeira, e outras espécies que não consigo identificar à primeira vista. Encho à pressa um pequeno caixote com um sortido de galhos, pinhas, folhas de louro, acendalhas e meia dúzia de toros mais maciços. Satisfeito e carregado, regresso a casa e passo pela cozinha para roubar a caixa de fósforos. Não me falta nada, posso começar.
Coloco uma pinha no centro da lareira e cubro-a com uma pequena pirâmide de galhos e folhas secas.
O palco está montado. Acendo o fósforo e a acendalha. Seguro a acendalha com a tenaz e aproximo-a da pinha. Tímida e enfermiça, a chama parece hesitar em ferir a pinha e a pirâmide, até que finalmente se decide e se exibe em todo o seu esplendor. Instável a princípio, o fogo arde agora com mais convicção e segurança. Junto mais ramos e folhas secas e aproximo um dos toros de pinho. Lentamente, a chama vai lambendo e consumindo a madeira numa carícia voluptuosa e fatal. Parece-me que o fogo "pegou" bem. Chego ao lume mais alguns tições, arrasto um banquinho de madeira, sento-me junto do lume, aqueço-me e recordo…
Porque gosto tanto do fogo? Desde pequeno, no quintal dos meus avós, eu, o meu irmão e o meu primo olhávamos fascinados para as chamas das fogueiras que se ateavam ocasionalmente para queimar lixo ou velharias. Uma fogueira era sempre uma festa. Plásticos, pneus, fruta podre ou roupa velha, a nossa curiosidade atirava tudo para as chamas sem piedade. Como era doce o prazer da destruição! E que surpresa e maravilha se espelhava no nosso olhar quando, de vez em quando, a chama tomava tons azuis ou esverdeados!
De outras vezes, à lareira, o encanto era diferente. Não havia tanta brincadeira, mas os olhos não se desviavam do bailado das chamas. Às vezes, ou porque a lenha não estava bem seca ou porque a chaminé fumava mal, a sala enchia-se de fumo e os olhos ardiam até às lágrimas, mas não arredávamos pé. Porquê? É o prazer da repetição. No Verão, quando por vezes ia à praia, sentava-me no areal durante horas a ver as ondas crescerem e rebentarem na areia. O movimento repetia-se continuamente, mas nunca me aborrecia. Talvez as chamas me lembrem um pequeno mar laranja, talvez seja por isso que gosto tanto de as olhar…
Alguns tições estão quase desfeitos e escorregaram um pouco da sua posição inicial. Regresso à infância e chego ao lume algumas folhas de louro. A chama desperta subitamente, furiosa e mal-humorada e um crepitar vivo e efervescente ecoa por toda a sala. Porém, cansa-se depressa e retoma rapidamente o seu estado inicial. Os tições desfazem-se facilmente com um breve toque da tenaz e as brasas acumulam-se no fundo como pequenos cubos incandescentes.
Tenho ainda muita lenha, mas mais um ou dois toros bastam. Espreito o caixote e escolho um toro maciço de oliveira. Vai levar tempo a "moer", deve durar-me a noite toda.
Tenho a cara avermelhada e o corpo quente. De vez em quando, o calor intenso do lume força-me mesmo a afastar ligeiramente o banco ou a mudar de posição para "torrar" do outro lado. Não importa, sinto-me bem. Hoje, como dantes, o fogo acalma e aquece, consola e faz companhia. E é por isso que, como amigo, eu me sento a seu lado.
2 comentários:
A-do-rei!
Adorei!
É sempre bom ver o Samuel num contexto diferente, e a verdade é que ele é o mestre dos desafios. Já não é a primeira vez que, posto perante um objectivo específico, tu arrasas imenso!
Todo o texto é maravilhoso. Desde o ínicio, que é escrito de forma tão familiar e que nos capta tão depressa, à continuação da acção, que é tão visual que eu quase espero que tu tenhas realizado a tarefa inteira enquanto escrevias, e o final - o transporte automático para uma sensação de conforto que anda de mãos dadas com a tendência para lembrar. E isto acontece-me tanto!
A frase final é a cereja no topo do bolo - eu também sinto o mesmo pelo Fogo, um amigo junto ao qual sabe bem sentar.
Muitos parabéns Samuel, entraste a matar. Muitos parabéns mesmo!
Este texto tem o dom estranho de me fazer sentir o calor da fogueira, se isto faz sentido :D
Muito bom, mesmo, a tua escrita parece quase etérea!
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