terça-feira, 25 de novembro de 2008

As Botas de Dorothy - Parte Um


Para aquelas que rapidamente se tornam

mulheres pouco convencionais




O meu nome é Olívia e mudei-me recentemente para uma zona afastada da cidade, um pequeno bairro onde as vivendas particulares abundam e onde a pacatez é a palavra de ordem durante todo o dia.
Esta é uma zona em progresso, mas com algumas reminiscências do ruralismo anterior. Está povoada de grandes casas, algumas prontas a estrear ou ainda em construção e, apesar da remotabilidade que quase descreve este lugar, o número de casais jovens que se vem instalar vai aumentando, ainda que lentamente. O acesso através de transportes públicos é, todavia, reduzido, e a partir de certas horas é mesmo impossível, uma vez que o número de autocarros disponíveis para esta zona é praticamente nulo. Assim, as pessoas que destes dependem para se dirigir ao emprego todas as manhãs encontram-se naquele que é o único autocarro que as pode levar dali até ao centro da cidade à hora madrugadora.
Tal como referi, por aqui os rostos novos surgem com lentidão, por isso aqueles que me acompanham na viagem matinal até à cidade são os que aqui moraram toda a vida e cuja família se multiplicou em redor da casa dos progenitores mais antigos. Posso até dizer que o bairro se poderia dividir em diferentes quadrantes, de acordo com o sobrenome predominante.
Reconheço todas as manhãs os mesmos rostos, portanto. As duas estudantes universitárias, de longos cabelos dourados, aspecto jovial e palrador, e pasta negra na mão; a proprietária do café local, uma senhora com cerca de setenta anos, cabelo grisalho e avental azul axadrezado, que traz pela mão a neta mais nova, uma menina de cabelo cor de avelã, bibe cor-de-rosa e voz animada, muito irrequieta; o grupo de seis ou sete raparigas adolescentes, distinguíveis dos restantes pelas roupas de cores berrantes, a maquilhagem forçada e o tom de voz agudíssimo com que, em vocabulário pouco polido, trocam entre si opiniões fúteis sobre determinado tema; o proprietário da tabacaria local, de pernas longas, barriga muito proeminente e cabelo totalmente branco; o irmão da costureira, de fato impecavelmente passado a ferro, sem vestígio de vincos, e bigode farto; por vezes a própria costureira, uma mulher roliça e anafada, de farta cabeleira loira, qual juba de leão, mas que, segundo ouvi, faz magia com a agulha. Há ainda duas outras senhoras, de idade mais avançada, nas quais reparo frequentemente; se não estão a falar uma com a outra como se houvesse um vidro entre ambas, uma mete conversa com qualquer um, sem reparar nos olhares de soslaio que lhe lançam outros, enquanto a outra fala sozinha, respondendo às próprias perguntas, como se estivesse a seu lado um interlocutor que mais ninguém consegue ver.
Os três primeiros lugares do autocarro são, no entanto, ocupados por três mulheres que se distinguem dos restantes pela atitude elegante, clássica, que as reveste dos pés à cabeça. Ou talvez estes sejam os melhores adjectivos a aplicar apenas a Elianor e Harriet, uma vez que eu não nasci tão bonita e distinta quanto elas. Além disso, estou habituada a não dar nas vistas ou a ser olhada uma segunda vez. Não é algo que me incomode, contudo. Cada um deve aceitar o que é e valorizar as suas próprias qualidades. E eu sei comportar-me. Essa é a minha melhor característica.
Não há como não apreciar Elianor e Harriet, quanto mais não seja por se destacarem tão intensamente daqueles que as rodeiam àquela hora do dia. Há gente a falar muito alto; queixumes sobre artroses, dor nas costas e nas pernas, tendência dos maridos para o álcool, do frio que já faz no mero início do Outono, percorrem o ar que embacia os vidros. Elianor, Harriet e eu somos diferentes: trocamos palavras murmuradas, inclinando-nos para perto das outras para melhor sermos ouvidas, e quando voltamos a recostar-nos no banco, ficamos erectas, de mãos descansando no colo e o pescoço direito, enquanto observamos através do vidro com um olhar plácido, inteligente e atento.
Não me interpretem mal; não tenciono descrever-nos como três mulheres de fortuna e mediocridade abastadas, como as que povoam as revistas sobre casamentos e outras festas entre famosos. Não. Somos diferentes simplesmente porque não pertencemos a este meio, e não temos nada em comum com estas pessoas. Não é minha intenção menosprezá-los ou ofendê-los seja de que forma for, mas não se pode esconder que se trata de um meio pouco estimulado, mas antes pleno em intrigas e mexericos de bairro onde absolutamente toda a gente se conhece e de alguma maneira se relaciona consanguineamente, e isso é algo que não nos agrada de todo. Nós estamos habituadas a outro tipo de coisas, mais características do meio urbano, entre as quais a falta de contacto entre vizinhos e a discrição.

4 comentários:

Speed-Of-Pain disse...

Bem, tu entraste a matar!

Este é sem dúvida um belo texto e não me é fácil dizer ao certo porque gosto tanto dele.

Para começar, nem sei muito bem como o descrever: é um pouquinho de "diário", com um pouquinho de "crónica jornalística", com um pouquinho da tua "fantasia".
(É certo que esta descrição não faz justiça ao texto e tu sabes que o todo é sempre maior que a soma das partes...)

No entanto, a "crónica" nunca se torna demasiado extensa ou aborrecida, o "diário" não é demasiado evidente ou confessionalista e a "fantasia" não é exagerada nem forçada.
Resumindo: acho que encontraste o "tom" certo e a "medida" certa de cada "ingrediente".

Depois, tenho de voltar a referir e elogiar o teu talento para as descrições. Este nota-se perfeitamente na tua atenção ao pormenor, e à escolha cuidada dos adjectivos que o qualificam. Acho que é um dos teus maiores trunfos e que deves ter consciência dele e orgulhares-te do mesmo ;)

Por outro lado, neste (e noutros textos teus mais recentes) há uma certa serenidade, um certo "pudor", um tom "comedido" que aprecio bastante.
É um texto que exala serenidade, mas não a procura impor. É um texto que te faz sorrir sem forçar o sorriso. E é um texto para reler com gosto.

Nota-se que este já não é um narrador (narradora)que se procure afirmar ou convencer a si mesmo da sua força. É uma pessoa normal, com alguma experiência de vida e com quem, pessoalmente, me identifico com mais facilidade.
E depois há sugestões e imprecisões que dão margem ao leitor para imaginar ou suspeitar de "uma outra história" que esclarecesse por completo a inicial.

Peço desculpa por te fazer uma análise meio "impressionista" (talvez preferisses que fosse mais específico e te apontasse exemplos aqui e ali do que mais gostei), mas acho que a própria análise que te faço deve ser lida com um elogio sincero ao teu texto.
E tudo o que verdadeiramente nos marca , fá-lo sempre por uma razão desconhecida e mais verdadeira que todas as outras...

Jo F disse...

Querido Samuel:


Muito, muito obrigada pela análise que fizeste. Muito obrigada pelas tuas palavras; ainda bem que gostaste. Estás sempre à vontade para analisar, porque de resto tu dizes sempre coisas que me deixam a pensar, como críticas construtivas que são, ou me deixam a sentir realizada, por perceberes tão bem a mensagem.

Fico à espera do teu.

Um beijinho.

Selenia disse...

Adoro ver como tens um estilo definido, ao ponto de reconhecer que é um texto da Jo, mesmo que estivessem 10 textos anónimos aqui.
E como tou um bocado atrasada nisto dos comentários.. vou continuar na segunda parte :P

Jo F disse...

Bem, não percebo muito bem o que é que isso quer dizer e pode não ser um elogio... Hehehe
És capaz de definir o meu estilo, para eu saber que impressão causo?


Beijinho.