terça-feira, 25 de novembro de 2008

As Botas de Dorothy - Parte Três

O vidro devolve-me a imagem de uma rapariga de cabelo muito escuro, quase preto, abundante e áspero, parcialmente preso atrás com um travessão de prata e uma franjinha cortada em forma convexa. Ao contrário dos olhos das outras duas, os meus são pequenos e lançam a sua expressão rígida através de um par de lentes de forma rectangular. Há ainda a minha boca e nariz pequenos, que acentuam a minha expressão reservada, e a minha estatura baixa, que não me torna mais engraçada aos olhos de qualquer um. No que toca à minha roupa, sou igualmente circunspecta. Calças de ganga, camisola de malha e, por baixo, uma camisa de colarinho a sobressair. Nenhum adereço ou maquilhagem em excesso. A maioria das raparigas da minha idade desaprovaria semelhante vestuário, mas é assim que me sinto ajustada à maturidade que toda a gente me atribui.
Nem sempre é fácil viver rodeada de miudagem de atitude histérica e absurdamente impulsiva e emotiva, mas para quando sinto fraquejar a certeza de mim própria tenho as minhas botas. De camurça castanha e suaves ao toque, mantêm-me os pés quentes e bem assentes na terra. Pode soar a algo que a futilidade apregoaria, “as minhas lindas e modernas botas”, mas a verdade é que me fazem sentir segura e confiante. Os meus passos, curtos e apressados, tornam-se decididos e femininos, pelo menos a meu ver. Não sei dizer o que possam ter de especial, até porque não são particularmente espectaculares, mas eu adoro-as e costumo até pensar nelas como o equivalente aos sapatos de Dorothy, a personagem principal do conto infantil “O Feiticeiro de Oz”, excepto que as minhas botas não me transportam entre locais. No entanto, fazendo-me sentir segura num mundo virado do avesso, talvez lhes possa atribuir uma certa dose de magia…
Sentadas lado a lado, Elianor e Harriet trocam palavras abundantes entre si durante a viagem, e sorriem para mim daquela forma gémea que as aproxima em tantas outras coisas. À sua frente, esboço um sorriso, que sei que nunca sairá tão encantador quanto o delas, e mantenho o ar sério que me define.
Às vezes acho que Elianor tenta puxar-me para as conversas que partilha com a filha, mas elas são tão adoráveis naquela beleza que partilham, que sinto repulsa em incomodar e intrometer a minha gravidade. Prefiro ocupar-me revendo mentalmente a ordem com que delineei as várias acções do meu dia. As aulas da manhã, o almoço rápido na cantina, a procura, junto das entidades certas, de certos documentos que preciso entregar na escola, a ida ao ginecologista. De todas, é esta última que mais me incomoda, mas não o demonstro. Não gosto de partilhar a minha privacidade com ninguém, nem mesmo com quem mais admiro e, por isso, respondo grave, e quase friamente, a Elianor quando volta a insistir em acompanhar-me na consulta. Posso não ser tão bela quanto elas, mas adquiri os seus hábitos e conduta, e sei comportar-me como uma senhora educada e discreta. Não quero, nem preciso, de acompanhante algum.

1 comentário:

Selenia disse...

nesta altura pergunto-me quem é a Olívia.. adoptada? ou simplesmente diferente? Uma sobrinha?
Esta primeira pessoa está sublime, já agora :)