segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Dulcineia


Boas

Por sugestão da Joana, publico um excerto de um texto que não sei ao certo como definir. Amostra de romance, ensaio, autobiografia ou poema-em-prosa, este pequeno "monstrinho" há muito que me vem perturbando e seduzindo, sem que eu saiba ao certo que rumo definitivo lhe dar.

Por tudo isto, o mesmo texto deverá ser lido e interpretado como resumo, rabisco, obra em curso e sujeita a futuras alterações ou, porventura, destruição total. (O que é evidente dada a curta extensão dos capítulos os sinais "+", etc.)

Sabendo que seria aborrecido e desnecessário alongar-me muito em explicações sobre a natureza e temática do texto, deixarei apenas algumas considerações prévias que talvez facilitem a leitura. Se houver interesse ou necessidade de esclarecer algum ponto, responderei num comentário futuro.

- a epígrafe retirada do "Dom Quixote" traduz-se para algo como "Se vo-la mostrasse que faríeis vós em confessar uma verdade tão evidente?" e é a resposta dada pelo mesmo Quixote a todos aqueles que têm relutância em afirmar que Dulcineia seja a mais bela das mulheres apenas por nunca a terem visto. Para Quixote, jurar depois de ver seria fácil, inútil e de pouco valor. Fica assim talvez mais claro o título "Dulcineia" que funciona como nome alternativo para Marta (a mulher "imaginária" com quem dialoga o narrador) e também o trocadilho final "escrever-te-ei no próximo capítulo" = ("escrever-lhe-á", mas também " escrevê-la-á").

- a epígrafe de Eugénio de Andrade pretende simbolizar a dificuldade de comunicação e demonstração de afecto entre duas pessoas (que se relaciona também com o tema da problemática relação entre Linguagem e Realidade)

- Se o primeiro capítulo está mais próxima da forma do romance propriamente dito, o segundo é maioritariamente um ensaio, um caderno de apontamentos de temas a desenvolver ao longo da história (daí as reflexões, as citações, etc.)


Dulcineia

"Si os la mostrara qué hiciérades vosotros en
confessar una verdad tan notoria?"

Don Quijote




"Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias"

Eugénio de Andrade


I


.... E tudo era como se por um instante secreto fosse possível saltar o muro e transpor a cortina espessa que nos policiava o desejo.

- Oh, mas sem melodramas...

Sim, sim, de acordo. Áspera, fria e cortante - a tua voz. (É a voz da "minha mulher") E todavia sempre sincera, suave e delicada. Será isto um paradoxo? Queimando como a brasa que nos consome as mãos para depois as confortar e defender no rasto delicado da sua combustão...
(Porque também pode haver carinho no simples acto de destruir, desfazer ou insultar...).

Ou talvez eu te reduza, desfigure e diminua ao procurar atribuir assim um certo travo assassino ao que em ti era puro, instintivo, natural - o falar.

E depois tu nunca foste mulher de segundas intenções. O teu discurso exacto, preciso como um golpe desferido, disparado à queima-roupa. As acções perfeitamente reguladas, coordenadas sob disciplina militar.

Ah, como é fácil e reconfortante sonhar com monstros no escuro! O conforto quente que nos oferece o cultivar de um temor, submissão! "Se os não podes vencer, aceita as suas condições." - é a fórmula da prudência dos cansados e da cobardia dos activos. Mas hoje estou cansado e passou o tempo dos projectos...

+++

E a minha teimosia, insistência ou convicção em te falar de um tempo em que (+++) e tudo era como se...

II

Writer's block. A folha em branco, a caneta à tua espera. Que dizer? Falta-me a fé, coragem, ingenuidade ou puro e simples descaramento. A torre de marfim ruiu, estou só e sem desculpas.

E, no entanto, há que vestir o fato de gala, ter maneiras, ser sociável, agradecer e justificar o que já não nos pertence. Egoísta? E como sê-lo? Pesas conceitos, colas metáforas, limas arestas e, no fim de contas, serás sempre traído pela mesma matéria que possibilita a criação. Nunca se diz o que se queria dizer, mesmo que tudo esteja certo...

Ácidas, amargas, frontais, dissimuladas e, porventura, sempre escassas, incompletas, imperfeitas - as palavras. Uma definição ou simples entrada de dicionário - que fictícia confiança...

Definir é reduzir, restringir, delimitar. Catalogar conceitos e arrumá-los para escapar ao abismo do caos, para silenciar o vazio que nunca preenches. A realidade arredondada, aproximada como o 3,14159... O que é a verdade? Qui es veritas? (S.João, 18:38).

A linguagem limita e apazigua. Porque ela nasce talvez da dolorosa constatação da ausência de um princípio ordenador, e foi talvez por isso que o próprio Adão não resistiu à terrível tentação de nomear a realidade (Génesis, 2:19). Porque ela não é um simples meio ou ferramenta necessária à apreensão do Real, mas o próprio Real que descreves e interpretas, e nada existe enquanto não se revela através dela ao teu olhar ... ("The limits of my language mean the limits of my world" - Wittgenstein)

E, no entanto, escreves, insistindo em lutar contra o impossível. (E que outra luta vale a pena?)
Porque o mistério perturba e não estamos calados.
Porque no fim de contas sabes que tudo o que verdadeiramente importa extravasa para lá das correntes dos sintagmas, núcleos nominais, substantivos, morfemas e alomorfes...

E que o azul é muito mais que um nome que tu dás a uma sensação experimentada na observação de um espectro de luz compreendido entre os comprimentos de onda de 440 a 490 nm.
Azul turquesa, azul celeste, azul bebé. Azul líquido e fictício nos teus olhos que nunca foram azuis... - Marta.

Minha ficção das horas vagas, meu amor de papel.
Não serás então nada mais que um calmante? A almofada coçada onde deitamos a cabeça para dormir e esquecer? Enfermeira nocturna, prostituta irreal, lenitivo doce... Pretexto vazio e disfarce fraco de uma degenerescência crónica, da minha virilidade ameaçada e instável como um par de calças com remendos...

Palavras, palavras... São a forma mais fácil e económica de dizer o que se não pensa.
De facto, que tens tu que ver com metáforas alheias?

Tu és tu e tu apenas - tudo o resto é circunstancial.

(Tudo o resto é entretenimento de literatos desempregados que se reflectem ironicamente num jogo de espelhos escrevendo sobre literatos desempregados que inventam piadas sem graça sobre literatos que se miram ao espelho...)

E, no entanto, o teu nome... - Marta. Há tanto tempo, porquê agora ainda? Segue-me para a toda a parte como um mendigo ou cão vadio a quem recusássemos a custo a companhia ou a esmola.

Mas devia despachar-me: tenho uma história a contar. Vou descansar um momento, escrever-te-ei no próximo capítulo.


3 comentários:

n0ir disse...

Ena...também não me atrevo a definir este texto. Está, no mínimo, excelente.

Jo F disse...

Sim, aqui o nosso Samuel sabe muito bem mexer os cordelinhos da linguagem.
Tem uma escrita bastante sóbria, mas ao mesmo tempo tenho para mim que pertence a um plano diferente daquele a que estou habituada, e no qual incluo autores conhecidos.
Já tinha lido este texto há algum tempo, e mantenho o elogio que lhe teci na altura.
Fico também contente por verificar que não desististe do nosso projecto. Em breve, a Selenia fará certamente o gosto de nos presentear com um dos seus textos, recente ou antigo.


Obrigada Samuel, e continua com este teu fabuloso trabalho.


Jo

Selenia disse...

Concordo com a Jo.. a tua escrita é diferente do habitual. Há algo no teu estilo que me fez lembrar os poemas do "Só!", o que dá um toque de solenidade.
Gostei, e espero ver mais :)