quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

2 - Listas: Ódios de Estimação

O texto que se segue é um relato em tom humorístico e ligeiro de alguns dos meus principais ódios de estimação. De entre inúmeras possibilidades, seleccionei apenas 4 (aquelas de que me lembrei no momento) para não tornar o texto demasiado extenso ou maçador.

1 - Telenovelas

Por mais anos que passem e mais voltas que dê à cabeça, continuo a não compreender o fascínio feminino por estas formas de entretenimento. Afinal de contas, o que vê uma mulher de tão especial numa telenovela? (Ok, já sei que também há homens que vêem telenovelas, mas a percentagem dos mesmos deve ser igual ao número de mulheres que vê jogos de futebol).
Correndo o risco de ofender alguns leitores ou leitoras, devo confessar que as telenovelas sempre me pareceram funcionar como "romances de cordel para analfabetos". Honestamente, qual é o interesse em seguir regularmente uma história dividida em centenas de episódios quando basta ver o primeiro para se saber o final? Ao menos num jogo de futebol eu só sei o resultado depois de o jogo acabar...
Ah, e já agora, é impressão minha ou há sempre alguém que é atropelado nas telenovelas? Os tipos da Globo têm algum trauma de infância com as passadeiras?

2 - Livros de auto-ajuda

É difícil expressar por palavras o ódio que sinto por esta praga que invade as nossas livrarias. E "praga" é mesmo o melhor vocábulo para definir este tipo de literatura, visto que estas "criaturas" parecem reproduzir-se assexuadamente e a velocidades assustadoras! Para que serve um livro de auto-ajuda? Acima de tudo, para ajudar as finanças de quem o escreve. Isto já para não falar de que todos estes livros devem ser escritos pelo famoso Captain Obvious. Há lá coisa mais evidente do que dizer: "Lute pelos seus objectivos!", Não perca a esperança" ou "Aprenda a gostar de si!", entre outras frases semelhante, a alguém que se sente em baixo? E será que sou só eu que embirro com o tom "paternalista" e "fofinho" daquela escrita? Aquela música de embalar do "Não tenha vergonha de chorar. Você também tem o direito a sofrer. Só tem de olhar bem para dentro de si e verá que é uma pessoa fantástica!" A sério? Não dá vontade de cortar os pulsos só para chatear os tipos que escrevem estas pérolas?

3 - Teorias da Conspiração

Esta é outra praga que devora lentamente as nossas livrarias e a paciência de quem as frequenta. Os famosos "mistérios", "segredos", "códices", "códigos", "seitas" e todas as outras palavras que evoquem simultaneamente as ideias de conhecimento secreto e revelação escandalosa. A meu ver, a arma de sedução destes espécimes é semelhante à usada pelos livros de auto-ajuda, porque passa mais uma vez pelo elogio fácil ao leitor. O que um livro destes muitas vezes nos parece querer dizer é algo como isto: "Querido leitor. Tenho um segredo para lhe revelar. Um segredo de proporções monstruosas e conhecido de muito poucos. Quase ninguém pode imaginar ou muito menos compreender aquilo que tenho para lhe dizer, mas o leitor é diferente. Eu sei que o leitor compreende, porque é uma pessoa especial. E é por ser tão especial que lhe vou contar este segredo". A ironia deste tipo de literatura é que ninguém parece reparar que estes são segredos tão secretos (passe o pleonasmo) que qualquer pessoa que pague 10 ou 15€ os pode ficar a conhecer...

4 - "Emos"

Todo o melodrama cansa e é certo que todos nós já nos comportámos como "drama queens" uma vez na vida. Ainda assim, o fenómeno "emo" atingiu hoje proporções assustadoras e quase apocalípticas. Os adolescentes vestem-se de preto, maquilham-se de preto e ameaçam cortar os pulsos porque "ninguém os compreende". Sim, eu também fui adolescente, também fui melodramático e também tive fantasias suicidas, mas era algo de que uma pessoa tinha vergonha. Hoje é "fixe" ter-se pensamentos suicidas! No meu tempo havia meia dúzia de gatos pingados mais "hardcore" que, de vez em quando, se mutilavam ou suicidavam mesmo e que eram quase sempre solitários e não chateavam ninguém. Hoje há manadas inteiras de adolescentes que apregoam orgulhosamente a sua dor a todo o mundo e o seu desejo de "desaparecer para sempre", mas que raramente chegam a vias de facto. Porque não incluir como leitura obrigatória nas aulas de Português aquela pérola de cinismo do Álvaro de Campos que começa: "Se te queres matar, porque não te queres matar?".

4 comentários:

Jo F disse...

Apesar do meu texto ter sido fabricado de acordo com a ideia que eu tinha tido em relação a este segundo desafio, a forma como escolheste apresentar o teu não é menos deliciosa, sobretudo pela escrita. Não sei se a tua escrita mudou mesmo ou se é efeito de saíres daquilo que geralmente será a tua zona de conforto, mas adoro ler o que escreves, seja em forma de prosa, seja em forma dr "crónica" ou "crítica".
Keep up!

Speed-Of-Pain disse...

A língua tem destas coisas... O que eu acho que aconteceu é que eu li "pet hates" no sentido idiomático da expressão que corresponde ao português "ódios de estimação" e tu interpretaste no sentido literal "ódios dos nossos animais de estimação".
Seja como for, acho que foi um equívoco engraçado e o resultado final até teve a sua graça. O texto foi escrito num estilo intencionalmente humorístico para contrastar com o anterior e também porque a minha interpretação do tema se prestava a um tom mais ligeiro. Mais uma vez obrigado pelos elogios!

Jo F disse...

Se o engano não tivesse originado um resultado bem divertido, estava a sentir-me meio mal. Acreditas que nem sequer me passou pela cabeça a interpretação idiomática da frase? De facto achei estranho haver um tópico referente a "animais", mas acho que andava já com alguma vontade de escrever sobre as minhas gatas (esteve para ser o tema do primeiro desafio) e ceguei completamente à verdadeira interpretação! Tenho duas gatas: a Izumi (gata do Carlos que mora comigo e cujo nome se deve ao amor que o Carlos tem pela cultura Japonesa) e a Tuala, que deve o seu nome a uma personagem da Juliet Marillier. A Tuala era uma criatura do Outro Mundo, como é designada pela autora, abandonada no mundo normal e recolhida por um menino de coração enorme que mais tarde seria Rei. A história da minha Tuala incluíria o seu desaparecimento, como acontece aos gatos que nascem nas aldeias e são indesejados, mas eu raptei-a para uma vida bem melhor onde ela pode expor toda a sua Gatice...

António Matos disse...

Pois, acho que compreendo quase todas as tuas "pet hates", principalmente as dos livros de auto-ajuda e de teorias da conspiração.
Em relação ao texto, não tenho muito a dizer, tirando que, enquanto texto ligeiro, funciona muito bem, que a citação do Álvaro de Campos a rematar é muito bem conseguida e que só não gosto mesmo é do uso das aspas para enfatizar (que, curiosamente, é uma das minhas "pet hates").