Viagens paralelas
Grande parte das minhas leituras é feita a bordo de um autocarro. Talvez aos olhos dos outros isso me faça parecer uma pessoa distante ou lunática, distraída ou intelectual, mas a verdade é que dificilmente consigo imaginar melhor forma de aproveitar uma viagem que, sendo já rotineira, nada de novo terá para me mostrar.
Gabo-me de fazer viagens paralelas: apenas numa delas estou realmente a mover-me, mas na outra saio para longe durante algum tempo. A cidade desdobra-se à minha frente, como todos os dias. As pessoas apeiam-se, juntando-se à viagem partilhada que nos levará a todos para outro dia fora de casa. Conversam, despedem-se, acenam, partem. Mas na minha mão, outros se encontram e se separam, e é desses o destino que me interessa. Pegando-me pela mão, assim me transportam para o seu mundo, e eu não me preocupo e fico livre para viajar. Do meu destino tratará o motorista, que sabe bem para onde vai. Eu não sei para onde vou, mas sei que alguém me virá buscar.
Entro no autocarro, uma passageira como as outras – mochila às costas, carteira a tiracolo e o ar ensonado de quem teria outros planos para aquela manhã. Mas quando me sento e abro o livro, logo de repente aparece alguém – etéreo para que mais ninguém o veja, mas sólido o suficiente para me roubar toda a atenção. E levam-me e eu vou e, como Caeiro, vejo como uma danada. Vejo, e sinto e penso e sei e acompanho-os por onde me levam, porque viver é coisa curta e a minha viagem física demora apenas uns minutos. Há que absorver quanto se pode, qual esponja insaciável. Quando se volta a viver? Provavelmente, só amanhã e o amanhã é longe demais.
E porque não? Os matutinos estão dentro de um espaço que é só deles, muitas vezes criado pela sonolência que ainda os acompanha neste princípio de dia. Os nossos ombros tocam-se, mas eu estou fora dali. E dentro de um espaço movido a rodas, uma viagem bem longínqua toma lugar.
O que mais me custa é regressar. Dizer-lhes adeus, até amanhã, e fechar entre capas aqueles que, logo de manhã, me acompanham e me ajudam a pensar. Mas eles não me abandonam necessariamente. A viagem física termina – é chegada a hora de também eu me apear. Mas quem diz que estou sozinha? Quem diz que agora não sou eu quem os leva a um novo mundo, um que lhes é novo e abismal, e que só poderão vislumbrar através do meu olhar?
6 comentários:
Belo texto! Tem o teu estilo fluido e natural que eu já conheço, mas que gosto sempre de reler. Já conhecia esse teu gosto fanático pelas leituras, mas não sabia que ele também se manifestava nos autocarros :)
Gostei da analogia entre a viagem física e a viagem mental, porque é verdade que a leitura é sempre uma viagem. Ah, e também gostei da referência ao Caeiro que me fez logo sorrir ;)
Keep it up!
Obrigada Samuel. Por acaso achei-o bem fraco antes de o postar, mas o tempo estava apertado e se não fosse há pouco, não ia conseguir colocá-lo hoje de todo. Acho que podia tê-lo desenvolvido mais, mas estando eu em bloqueio há uns tempos, talvez seja boa ideia não exigir muito às primeiras vezes.
É um enorme prazer estar aqui!
Gostei imenso do texto, sei que gostei porque durante uns minutos também eu estava no autocarro, a ver tudo o que ali se passava. Tu, as pessoas, as sonolências, o herói do teu livro a puxar-te disfarçadamente. Gosto da tua maneira de escrever. :)
Até à próxima, Joana, escritora.
Obrigada Jacinta. =)
Gostei bastante. Tem um tom introspectivo (como é natural num texto que versa sobre a leitura enquanto viagem), mas sem se tornar excessivamente fechado. Como o Samuel diz, a analogia que fazes entre a viagem física e a viagem que a leitura te proporciona parece-me ter sucesso.
Só não percebi (e sim, isto sou eu a ser picuinhas...já devias estar à espera) esta frase -> "As pessoas apeiam-se, juntando-se à viagem partilhada que nos levará a todos para outro dia fora de casa". "Apear-se" não é só aplicável a sair do autocarro, e não a entrar?
Venho aqui só para adicionar um comentário, porque concordo com os acima :)
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