sábado, 28 de janeiro de 2012

Desafio # 2 - Subordinado ao tema "Your Pet Hates/Irritations"


Toda a gente quer a vida que um Gato tem



Trompete. Bateria ao de leve. Piano. O Jazz sobe no ar, envolvendo a sua figura numa aura de confiança inabalável. Afinal, que outro adjectivo aplicar a uma Gata?

A patinha envolta em pêlo branco sobe no ar, imperceptível. Eu leio, sem saber a emboscada que se prepara nas minhas costas. Nem um só, nem um movimento em falso. O objectivo está estabelecido, e eu, na minha condição de humana distraída, não posso fazer nada para contrariar a sua felídea vontade.

E sobe-me uma dor pela nuca. As unhas afiadas perfuram-me a pele do pescoço, enquanto tentam arrancar-me o elástico do cabelo. Grito em irritação, enquanto escondo a pele magoada com a mão e giro a cabeça na direcção da minha atacante.

Sentada naquela forma elegante e soberana, a sua expressão equivale a um encolher de ombros. Afinal, ela quer o elástico. O resto nem sequer se proporciona como válida existência na sua mente.

Observo-a de olhos abertos pelo aborrecimento, mas logo este se desfaz na sua quase totalidade. Se não fosse pelo resquício de dor pelo cabelo arrepanhado, já estava perdida na sua beleza absolutamente dominadora. Toda a figura induz o derreter de qualquer sentimento que não seja o de adoração ou empatia, e tudo nela nos amarra à obrigação de vergar a nossa vontade à sua. O sedoso pêlo cinzento com listas pretas pode mostrar-nos um fenótipo comum entre gatos, mas é o peito alvo que lhe assegura a majestia enquanto as patas, quais pantufinhas de neve, lhe conferem um ar divertido e inocente. Aliás, é esta inocência óbvia que lhe brilha nos olhos grandes de bebé simultaneamente encantadora e soberana que me faz perdoá-la de imediato e regressar, sem mais queixumes, à minha leitura. Na verdade, a perdoada aqui sou eu, como é evidente para qualquer entendimento felino.

A paz está restaurada, mas apenas no meu humilde mundinho sensaborão. Na mente da caçadora nata a vontade não foi saciada. Nas minhas costas, o olhar profundo observa a sua presa colorida e à qual apenas eu sou o obstáculo. Mas, feliz das circunstâncias, sou o obstáculo irrisoriamente fácil de contornar. Na verdade, estou a atribuir-me uma importância não realista. Ela quer o elástico. Tudo o resto nem sequer se proporciona como válida existência na sua mente.

O ritmo jazzy envolve a sua presença. Afinal, não é o ritmo que envolve todo o mundo interior de um gato? Toda a gente quer a vida que um gato tem.

A pantufa de neve sobe novamente. A presa está tão perto.

Exclamo o seu nome em tom de ameaça: Tuala!




6 comentários:

Speed-Of-Pain disse...

Belo texto! Tem o teu estilo sereno e elegante e o teu talento antigo para as descrições sugestivas e quase visuais. Tens frases muito belas e com um agradável efeito poético. Apetece quase "saltar" para dentro do texto e ir também brincar com a gata (e eu nem gosto muito de gatos :P). Quem sabe se um dia destes não escrevo também um texto sobre o meu canídeo Sonic?
Ah, já me esquecia... Tuala.. Que nome tão estranho e ao mesmo tempo tão bonito... :)

Jo F disse...

Obrigada Samuel. Era já merecido um texto sobre esta gata, mas fica a faltar uma homenagem à Izumi, que é outra gata muito, muito especial.

António Matos disse...

Opá, ainda não consegui perceber como é que leste "pet hates" como "coisas que odeio no meu animal de estimação" XD
Dito isto, gostei mais do teu texto anterior do que deste, mas isso sou eu que sou chato, e torço um bocado o nariz quando vejo muitos adjectivos (basicamente, gosto mais do início, que é um bocadito mais seco, do que dos dois parágrafos maiores).
Já agora, e só por curiosidade, esta repetição foi intencional? -> "Afinal, ela quer o elástico. O resto nem sequer se proporciona como válida existência na sua mente." É que se foi, achei piada! :)

Jo F disse...

Sim, a repetição é outra forma de enfatizar (além das aspas..hehe). Também não sei como li "pet hates" de outra forma, mas não detesto isto na minha gata. É irritante, mas nao detesto. É ela a ser uma Gata. É ela a ser a Tuala.

António Matos disse...

Foi o que calculei (em relação à repetição) :)
Eu arriscaria que detestas a parte em que ela te crava as unhas no pescoço (a não ser que tenhas tendências masoquistas que eu desconheço)... mas percebo o que 'tás a dizer.

Jo F disse...

Ah sim, isso não gosto muito, não...