Mudámo-nos há cerca de seis meses para esta zona dos subúrbios devido a um golpe de azar nas finanças da empresa dirigida pelo meu pai. A casa na cidade ficou para trás, sendo substituída por uma casa, também bonita e agradável, mas mais barata, por ser num lugar distante do centro.
No entanto, devo dizer que nem tudo é totalmente desagradável neste novo lugar: quase não há ruído de veículos, não se ouve vivalma durante o dia, um silêncio que tem tanto de compensador como de assustador (não gosto de barulho, mas uma pessoa sente-se sozinha sem o mais pequeno ruído de fundo e os sentidos ficam mais alerta), há imensos espaços verdes e podem fazer-se longas caminhadas e respirar um ar muito mais puro que aquele a que estávamos habituadas.
Elianor e Harriet assumiram a mudança com a habitual tolerância que define o seu comportamento. Elianor chegou mesmo a dizer que não via qualquer problema em morar ali, enunciando em seguida as melhoras características do sítio, que acabei de referir.
De longas madeixas douradas e parcialmente encaracoladas, pele alva, suave, cuidada, Elianor é uma mulher gentil e sensata, com a qual poderia passar horas a conversar. É também uma mulher de uma graça inqualificável: altura e peso perfeitos, maquilhagem usada apenas para realçar os grandes olhos cor-de-azeitona, e vestuário simples, mas absolutamente elegante.
No entanto, é também uma mulher ocupada com a gerência do próprio negócio, pelo que desde sempre me habituei a nunca a interromper ou incomodar. Não que ela fosse tratar-me rigidamente, a julgar pelo sorriso cálido e doce com que brinda a pequena Harriet, a sua filha mais nova, sempre que esta lhe bate à porta do quarto.
Apesar dos cinco anos de idade, Harriet podia ser considerada uma mulherzinha em tamanho reduzido. O cabelo, em tom dourado e curto, confere-lhe simultaneamente um aspecto decidido e descontraído, algo que reverbera a partir dos grandes olhos azuis. Delicada e linda como a mãe, mas divertida como só ela própria, é alguém que sabe agradar ao visitante e atrair as atenções pelas melhores razões possíveis. A conversa educada, o olhar interessado, os gestos tímidos, mas seguros… Por outras palavras, uma princesa em crescimento.
1 comentário:
Tens o nível de descrição ideal, nem pouco, nem a mais, e permite-me visualizar a senhora e a menina muito bem. Gostei da descrição da vida fora da cidade, até porque concordo perfeitamente :)
Enviar um comentário