Aproxima-se a paragem onde Elianor desce do autocarro com a filha pela mão, em direcção ao infantário de Harriet. A pequena ajeita a mochila nos ombros, antevendo o momento da saída, enquanto Elianor lhe compõe o casaco, de forma a evitar o frio gelado do exterior. Quando o autocarro abranda, ambas me dirigem um olhar de despedida e Harriet despede-se com um “Até logo” na sua voz jovial e animada. Retribuo com novo esboço de sorriso e um ligeiro toque num dos seus caracóis dourados.
O veículo já se encontra dentro do perímetro da paragem, e Harriet de pé, quando Elianor se detém um segundo com a mão no ar, perigosamente perto da minha pele, descuidadamente perto da minha dignidade. Exagero o solavanco de travagem do autocarro, aproveitando a oportunidade para me afastar da suavidade alarmante dos seus dedos.
Elianor finge não reparar e segue a filha até à saída, não sem antes me dizer “Boa sorte para a consulta, Olívia. És, de facto, a rapariga de 15 anos mais madura que alguma vez conheci”.
Já se encontram no exterior do autocarro quando trocamos um aceno através do vidro parcialmente embaciado. “Adeus, Harriet”, digo através de palavras silenciosas enquanto sorrio para a pequena. Elianor acena também, pelo que dirijo o meu olhar para ela e retribuo. “Até logo, mãe”.
O autocarro retoma o ritmo tremido e o ruído rouco do motor, e as duas mulheres vão ficando mais pequenas com a distância. Deixo de acenar. A partir daquele momento é um comportamento tolo e…popular. E eu disse que sabia comportar-me.
A minha melhor característica é aquela que com que me permito estar perto daquelas que são as mulheres mais deslumbrantes e encantadoras da minha vida. Logo, jamais me desapontarei.
Pergunto-me, sempre que a vejo entrar neste que é o último autocarro do dia, como é que pode ficar à espera do transporte sozinha numa paragem quase isolada, sobretudo quando o céu está praticamente negro com a aproximação da noite. Sei que é mais nova do que eu, por isso me espanto que ali fique, naquelas condições, quando eu torceria o nariz e tentaria arranjar outra alternativa, fosse ela qual fosse.
Não sei como se chama, mas reparei nela pela atitude decidida e séria que emana do conjunto dos seus atributos. De pequena estatura e cabeleira abundante e negra, penteada de forma antiquada, entra no autocarro de carteira encostada ao peito e caminha com passitos curtos, dando pequenos saltinhos ao avançar. Podia chamar-lhe um passo feminino e dizer que esta é uma mulher em miniatura. Não sei a sua idade, mas não tem aquela que quer aparentar. Pelo menos não para o observador cuidadoso.
Não lhe fica mal, contudo. De facto, não tem o aspecto, muitas vezes exagerado e forçado daquelas que querem ser adultas à força. O passo determinado com que faz soar as botas no soalho, o olhar independente de mulher que cresceu depressa demais, inteligente e atento por detrás dos óculos, destacam-na das outras da mesma idade que tenho visto por aqui. Quando se senta no lugar que escolhe, volto a perder o seu olhar, desta feita para um vidro iluminado em excesso pelas luzes do interior, o único a quem é permitido partilhar os seus pensamentos.
Talvez um dia lhe fale. Talvez um dia lhe possa dizer que vou escrever uma história sobre ela.
3 comentários:
Ora portanto, suponho que sejas tu a filha da Helena, e suponho que ela te tenha falado de mim, eu sou o colega de formação dela, o Ricardo.
Hoje fiquei surpreendido quando ela me apresentou o teu conto e me pediu para lhe dizer o que achava dele. Gostei imenso, como lhe disse, e disse-lhe também que viria visitar o blog para te dizer que teria muito prazer em conhecer mais do teu trabalho, visto que sou apaixonado pela leitura/escrita também.
Este conto fez-me lembrar de um que fiz quase nas mesmas circunstâncias, sobre uma senhora que vinha no autocarro certo dia. Aprecio muito a escrita livre e espontânea.
Desde já, peço desculpa pelo comentário extenso e despeço-me com desejos de boa continuação!
Sim, sou eu mesma.
Muito obrigada pelo comentário. De facto, tenho mais trabalhos, embora, infelizmente, a maioria esteja por terminar. Este espaço foi criado exactamente para combater os projectos inacabados e fazer-nos escrever, já que é, se não a, pelo menos uma das nossas paixões.
Relativamente ao seu texto, talvez fosse interessante partilhá-lo connosco neste mesmo espaço.
Os meus cumprimentos,
Joana
Muito bom. Quando vemos o outro lado do espelho, no final, e olhamos para ela do ponto de vista de uma espectador, gostei muito. Faz lembrar que, por mais que as aparências às vezes enganam, por vezes deixam passar uns laivos do que na realidade somos, como a descrição do espectador, que diz que ela cresceu depessa demais. A própria Olívia pode não se aperceber disso, mas parece que foi isso que aconteceu, pressionada pela presença de uma mãe tão distinta.
:) fico à espera do próximo, e a ver se não demoro tanto tempo a comentar!
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